Dentre os vários erotismos presentes na cinematografia brasileira dos anos 1970, destaca-se a história de Contos Eróticos (1977). Composto por episódios, o quarto é dirigido por Joaquim Pedro de Andrade e chama-se Vereda Tropical. Uma pérola política de sacanagem, à época censurada. De fato, sua extravagância não é pouca: um professor universitário desiste das investidas sexuais com outras pessoas e passa a se relacionar sexualmente com uma melancia, compartilhando livremente as descobertas com uma colega. O curta-metragem Veredas Tropicais (2024), de Fábio Andrade, mobiliza o parecer de censura e a única parte liberada do filme – os créditos e Carlos Galhardo cantando Luar em Paquetá acompanhado de um coro de mulheres. Assim, evoca o material através de sua própria ausência e insiste na brevidade da sequência musical. Resta a ela fazer ecoar o cantor de valsas para além da família brasileira tradicional e, fazendo jus à personagem de Vereda Tropical (1977), devolvê-lo às putarias românticas e políticas.
“Na estória VEREDA TROPICAL: cortar toda a estória” impõe-se. Corte seco. Pula-se as preliminares direto para o epílogo. Antes da sequência de Ilha de Paquetá restam ainda alguns segundos. Um plano da frente da casa do protagonista e um vulto de sua amiga andando de bicicleta diante do pôr-do-sol no mar do Rio de Janeiro. Parece erro de montagem ou encanto. Pequeno excesso safado que passou batido? Estão ali e dão conta de instaurar uma estranheza quando o cenário montado da praia de Paquetá aparece na tela. Abruptamente, a banda sonora pousa na voz de Galhardo. Ele sai das sombras e vem cantar, à luz da lua, para os espectadores brasileiros. Se no filme de Joaquim Pedro a sequência coroa uma ode ao prazer, aqui flutua sozinha e deslocada. Todas as artificialidades, do mar paralisado às roupas pomposas, fazem do lugar um paraíso inventado. A valsa é a promessa idílica de um mundo sem fim quando o mundo à sua volta só fazia encerrar.
A censura quase integral rendeu debates intensos, como em O Escândalo da Melancia, publicado em 1977 por Jean-Claude Bernardet na Folha de São Paulo. No texto, observa a radicalidade do corte diante de uma pornochanchada de bom gosto que, ao contrário da maioria, não ostentava nus femininos e moralismos. Posteriormente, outros críticos e críticas, como Andrea Ormond, seguiram debruçando-se na tarefa de uma revisão crítica perante tais produções, complexificando abordagens. Ainda no quente da década de 1970, Joaquim Pedro afirma que as pornochanchadas forneciam um retrato do que se passava socialmente no país, o que pode ser pensado à nível das imagens e da recepção. Mesmo após o episódio ser liberado para circulação, certas interdições perduram e com elas leva-se a memória de tais cinematografias. Diante da sexualidade às claras no filme de 1977, a política de Estado respondeu com a censura. Já no de 2024, joga-se com os ecos da imagem dessa proibição. Ao evocar tais discussões envoltas em Vereda Tropical hoje, flerta com a ideia de uma estória que busca ainda onde desaguar.
O erotismo tem seus jeitos cafonas e efetivos de se infiltrar – estratégias que, à época, o gênero das ditas pornochanchadas tantas vezes utilizou. Carlos Galhardo não dá conta de presentificar toda a estória em sua performance. É nas lacunas que introduz os ares de dissimulação na Ilha de Paquetá. A imagem norteada pelo lirismo do prazer contrasta-se com o gesto seco e rápido dos cortes institucionais. Se a censura, de fato, mobilizou algum interesse do espectador em ir ao cinema assistir às comédias eróticas, ao contrapor essa sequência aos documentos criminosos, Veredas Tropicais desvia o tesão para outro lugar. Aqui, o que seduz não é ver onde incide a censura, mas o ninho oculto em Paquetá e os nomes dos créditos sem imagens para ancorar-se. O que seduz no jogo de montagem proposto por Fábio Andrade é a comicização do gesto proibitivo e a estória que falta – sedução essa que leva-nos à procurá-la (e que maravilha).
Referências bibliográficas
AVELLAR, José Carlos. A teoria da relatividade. Arte e Pensamento – IMS, 2005. Disponível em: https://artepensamento.com.br/item/a-teoria-da-relatividade/
BERNARDET, Jean-Claude. O escândalo da melancia. In: MANTEGA, Guido (org.). Sexo e poder. São Paulo: Brasiliense, 1979a.
ORMOND, Andrea. Sobre conclusões óbvias. Estranho Encontro, 2007. Disponível em: https://estranhoencontro.blogspot.com/2007/04/sobre-concluses-bvias-ensaio.html