De quais formas o prazer se entremeia nas experiências de discussão e realização cinematográfica? Quais formas de produção levam o prazer em conta? Como pensar o prazer a partir de um referencial coletivo e, sobretudo, como prática inventiva? O prazer guarda relações com coisas sem nome, não-codificadas, instáveis? Quais cinemas lidam com o prazer da indeterminação? Como desorganizam nossas expectativas?
Façamos um pouco como as personagens de Sarau na cama (João Marcos de Almeida e Sérgio Silva, 2008), que discutem grandes textos entre a nudez, o rosa choque e o ruído do VHS (não fosse a referência à produção setentista, poderia ser um celular, cybershot, DSLR, etc). As atrizes Gilda Nomacce e Patrícia Aguille percorrem versos de Jairo Ferreira e Paulo Emílio Sales Gomes, deitadas numa cama de madeira digna de motel ao som de Chopin, Mozart e Verdi. Ler crítica com os corpos amalgamados, tão intelectuais quanto lascivas: o prazer encontra a história de nosso cinema, produzindo efeitos de brincadeira e gargalhada. Disputar perspectivas históricas envolve desejo. Só uma postura de interdição poderia fazer-nos desencantados, caretas e sem graça, a ponto de não desejar acessar tudo, assistir tudo, percorrendo a contribuição dos erros, riscos e acidentes àquilo que fazemos hoje.
Nesse sentido, pergunto pela recente circulação de Onda Nova (Ícaro Martins e José Antônio Garcia, 1983). Censurado após sua exibição na 7ª Mostra Internacional de Cinema, em seu ano de estreia, é exibido 40 anos depois no mesmo evento, agora em cópia restaurada digitalmente. No longa, acompanhamos os preparativos do time de futebol feminino Gayvotas Futebol Clube para uma partida contra a seleção italiana, paralelamente às suas intensas experiências de convívio. Os temas de liberação comportamental fervilhando no período, a crise da Boca do Lixo e as derradeiras incidências da Ditadura Empresarial-Militar emergem aqui de forma difusa. Fala-se do desejo de perder a virgindade, de estar menstruada, aborto, gênero e sexualidade – e, no entanto, os assuntos parecem nunca encerrar em si mesmos, persistindo através de uma forma rítmica e erótica de grupo, de bando. A descoberta de uma converge na da outra, as subversões têm cúmplices, os sonhos se contagiam, o trajeto pela cidade implica companhias e toda nudez atmosférica passa à energia despudorada geral do filme.
Não há protagonistas em Onda Nova – nem mesmo Carla Camurati -, tudo passa pela ótica do grupo. A força dessa diluição é radicalmente distinta daquela predominante nas atuais produções de grandes streamings, onde importa afirmar a positividade das representações e assegurar experiências reconfortantes. Uma tendência a um nivelamento das imagens em torno de referenciais individuais que afasta, em verdade, horizontes de experimentações estético-políticas de caráter coletivo. A pacificação das formas é a tônica do imperativo de reprodução – e desejamos muito, muito mais, que qualquer clichê de narrativa dissidente possa oferecer. Assentar a impossível ideia de um cinema especificamente de mulher, por exemplo, aquece apenas os ânimos de mercado, oferecendo contornos homogêneos adequados à livre-circulação algorítmica. Aqui o conflito míngua. Já a ginga que emerge do coração do bando – caótica, contraditória, perturbadora -, tende ao ímpeto prático de livre modificação das formas. O bando, em sua instância de excesso e contágio, é perigoso.
O ponto parece ser perguntar, antes, como o bando se movimenta e quais desdobramentos essa operação produz, que perguntar qual é o bando. Isso porque a resposta à primeira pergunta se encarrega de reinventar a resposta da última. A partir dessas questões e da cinética expansiva de Onda Nova, encontramos ressonância em outros filmes como Parque de Diversões (2024). Aqui, a dinâmica inventiva do bando passa pela desestabilização expressiva do desejo. No início do longa-metragem dirigido por Ricardo Alves Jr., escutamos alguém declamar o poema Ludismo (Orides Fontela, 1969): “quebrar o brinquedo é mais divertido […], o jogo estraçalhado se multiplica ao infinito e é mais real que a integridade mais lúcida”. Os versos preparam-nos para o que virá: cinema e tesão como instrumentos para ganhar a noite e refazer-se através dela, subvertendo espaços da cidade que à luz do dia respondem aos ritmos produtivos e normativos.
Breves follow shots acompanham figuras anônimas confluindo em direção ao Parque Municipal Américo Renné Giannetti, no centro de Belo Horizonte. Do lado de dentro, instaura-se entre elas a errância incessante e onírica do cruising. Nunca saberemos seus nomes, seu “background”, suas “subjetividades”. São seres limiares, joguetes do tesão. Figuras de superfície, essa é a complexidade: a pele como maior zona erógena e passível de invenção. O prisma pornográfico dá ensejo a uma imaginação abundante em função da brincadeira: expressam-se como mariposas, fetichistas, musicistas, submissos, tradutores do desejo alheio, voyeuristas. O frenesi da experimentação está na desordenação das dimensões individuais, vibrando uma energia orgíaca que faz e desfaz contornos incessantemente. O cinema de Parque de Diversões é aquele que reclama o prazer na insubmissão das formas – tal é a atmosfera através da qual seu bando se movimenta.
Se deslocarmos esse senso orgíaco para outras propostas cinematográficas, deparamo-nos, por exemplo, com Os 3000 anos eram feitos de lixo ou (quando a dignidade da raça humana se afogou no chorume estático da arte da hipocrisia) (Ana All, Luana Rosa, Ana Elisa Alves, Clara Chroma, Cleyton Xavier, Eduardo Sa Cin, 2016). Em uma distopia política governada por anarcocrentes e tomada pelo lixo, cyborgues da resistência assumem a luta possível a partir dos resíduos. Seus maiores crimes são o tráfico de filmes experimentais e a cinefagia. Entre incessantes bricolagens, viagens cibernéticas, sobreposições, efeitos de chroma key, descontinuidades insanas e toda nudez dos artifícios, instauram no corpo do filme um ritmo de algazarra e permeabilidade. Importa provocar fronteiras, promover o choque. Nas mãos deste bando estroboscópico, o cinematógrafo-cyborgue se converte em instrumento de um cinema por vir.
A vocação de bando de nossos cinemas coincide, na maior parte das vezes, com desvios do sujeito atomizado que em todas as telas da indústria cultural contemporânea se elogia e incentiva. Não por acaso nota-se, entre os filmes citados, um compromisso com a estranheza e uma variedade imensa de modos de realização. Diante deles, nos perguntamos surpresos “que cinema é esse?”. São filmes que dão seu jeito para dançar com os problemas, desarranjar as funções da máquina e seduzir-nos pela dúvida. O cruising de Parque de Diversões dá cabo a um desmantelamento de sentidos fixados à matéria dos corpos, fazendo do desejo não mais atribuição substantiva. Sua permanente brincadeira está interessada em fraturar contornos e circular prazeres, multiplicar as formas. A alegria do bando é anti-total. Na mesma direção, ao bagunçar e desinstrumentalizar o aparato, 3000 explicita outras mil combinações imagéticas possíveis. Como o jeito desavergonhado das gayvotas de Onda Nova se faz no drible constante dos constrangimentos de seu tempo e não pede licença para passar, a desordem destes bandos é aquela que abre os caminhos.
*Originalmente publicado no catálogo da 28ª Mostra de Cinema de Tiradentes.