Recife, 1977. Em O Agente Secreto (Kleber Mendonça Filho, 2025), o protagonista Armando (Wagner Moura) busca um documento sequer que comprove a existência da sua mãe. Em frente ao Cinema São Luiz, as vitrines exaltam filmes que talvez não conheçamos mais. Do lado de dentro, lado a lado de vitrais iluminados, cenas de cinema que um dia movimentaram multidões. Na rua, a memória de Armando acaba numa foto de jornal, a sua voz em fitas cassete contando de um tempo e de uma odisseia tão confidenciais quanto espetaculares. O mundo inteiro hoje conhece a vista magnífica da cabine do cinema, recriada para suprir uma eletrizante falta.
Recife, 2026. É como um paradoxo — talvez característico de um longo, demorado processo de maturação das diferentes instâncias da máquina estatal para dirimi-lo, ou ainda de uma honesta dificuldade crônica em visualizar a discrepância, dificuldade que ganha uma versão diferente entre uma gestão pública e outra, com as renovações de corpos técnicos, processos administrativos e usos políticos do setor audiovisual. Quando se trata de compreender o sentido ativo da Memória e da História registradas em filmes — em outras palavras, o que é Preservação e Difusão de Repertório em Cinema e Audiovisual —, há um déficit local que está tão a olhos vistos do profissional conectado às mais estruturantes redes de circulação de cinema Brasil afora quanto o cinema feito no Recife está, neste ano eleitoral, mais exposto do que nunca para o planeta.
Com um filme em torno de Memória e de História, a capital do estado de Pernambuco se torna uma cidade-chave nos mercados de cinema globais. E, no avesso extremo do fenômeno, os Poderes Executivos que atuam localmente com suas entidades correlatas, as Fundações — nos âmbitos municipal, estadual e federal —, não demonstram perceber sua própria inanição diante da Memória e da História do Cinema e de materiais filmados. Não demonstram, por um lado, compreender ou assimilar suficientemente os significados econômico, elucidativo e educativo de ações de difusão dedicadas a apresentar e reapresentar, continuada e estruturadamente, para públicos locais, as Histórias do Cinema, como se vê em outras cidades brasileiras de proeminência cultural. Por outro lado, em alguns casos, a gravidade de demoras ou negligências face à preservação e à restauração de arquivos audiovisuais, guardados no município por diferentes instâncias de Poder. A notícia imediata é a de que uma importante filmoteca pública se mantém praticamente abandonada enquanto seu valioso acervo se deteriora.
Calibragem do equipamento de projeção do Cinema São Luiz. Outubro de 2024. Acervo pessoal.
A frágil formação de repertório em salas de cinema públicas no Recife
Cinema São Luiz, Fundarpe/Governo de Pernambuco. Cineteatro do Parque, Fundação de Cultura/Prefeitura do Recife. Cinema da Fundação, unidades Derby, Museu e Porto, Fundação Joaquim Nabuco/Governo Federal. Cinema da UFPE. No Recife há um bom e bonito montante de seis salas de cinema públicas ativas, cada uma com características próprias, em comum entre elas a qualidade de imagem e de som ótima ou impecável que faz da capital de Pernambuco provavelmente a cidade brasileira com o melhor padrão de projeção digital em cinemas públicos. Isso foi assimilado por gestores dos equipamentos e a manutenção regular de projetores e sistemas de som se tornou, com os anos, um hábito. Que se possa manter essa nada fácil conquista de gerações de programadores.
É verdade ainda que essas salas públicas, com perfis de programação relativamente particulares, mantêm, cada uma a seu modo, conexões frutíferas com entes diversos, públicos e privados, de distribuidoras brasileiras, empresas produtoras locais e iniciativas de programação independentes a entidades públicas ou mistas dedicadas à promoção sazonal de cinematografias brasileiras ou estrangeiras. O Recife das salas públicas forma público e sabe formar público. Mas, ao fim e ao cabo, o que tem para o público ver numa sala de cinema a cada semana que chega?
Há algo de anacrônico na programação geral das salas centrais desse circuito: o modo com que, nas montagens semanais de programação, elas (não) vêm se articulando para apresentar e reapresentar a História do cinema — filmes de repertório, filmes de patrimônio — ou, ainda, para formar público ao passo que também, ao mesmo tempo, possam formar, continuada e estruturadamente, uma percepção e uma compreensão públicas da História, das Histórias, dos filmes e através de filmes. É necessário perceber, demonstrar essa percepção e ir adiante com boas estratégias executivas. De outro modo, não estariam as salas exagerada ou muito demasiadamente detidas sobre lançamentos que simplesmente vêm? Sendo que há mais de um século de filmes esperando nossos olhos? Num momento em que a restauração de filmes se torna objeto de alto valor em todo o circuito de festivais e mercados, o capital mais e mais interessado em iniciativas de criação de excelentes cópias renovadas para filmes de repertório, filmes de patrimônio, o que salas de cinema locais estão esperando para estruturar elas mesmas suas mostras, para fazer do encontro com histórias e imagens de todos os tempos um costume semanal, contínuo, e firme, sólido? Para reencontrar no dia a dia o que veio antes, o que fez o agora, o público geral de filmes numa cidade como o Recife deve contar apenas com os limitadíssimos algoritmos do negócio dos streamings?
Num momento em que o fenômeno da boa conversão de materiais analógicos em formatos digitais para sala de cinema se alastra por todos os lados do planeta e, notadamente, também no Brasil, via fomento público e aportes privados, o que cinemas no Recife estão esperando para ir adiante e dedicar-se a apresentar, ao seu modo de olhar genuíno, essas velhas sempre novas Histórias, histórias do passado para o futuro, que a cada dia se multiplicam na disponibilidade de acesso à Memória? Do Recife, capital do cinema no mundo, capital do filme local sobre Memória que neste 2026 atinge o topo da grande indústria global, poderá se dizer que vem demonstrando empenho convicto para contar as Histórias do Cinema? Empenho convicto para, ativamente, com sua lucidez própria, com seu senso particular de comunidade atenta e viva, com seu próprio desejo crítico, contar as Histórias do Cinema?
Que Histórias do Cinema os públicos locais têm a chance de descobrir se se detiverem a vagar pelos cinemas do Recife, capital do cinema no mundo? O que cinemas no Recife têm feito para organizar, com seu jeito mesmo de sentir e perceber o mundo e as imagens do mundo, a retomada e a discussão de Histórias? O que os cinemas públicos na capital do cinema no mundo têm feito para que públicos possam assimilar e, sessão a sessão, mostra a mostra, mobilizar, redistribuir na vida social aquilo que possam desbravar, reconhecer, aprender com mais de um século de Cinema, com as Histórias que nos trouxeram, como comunidade e como sociedade, até aqui?
Há referências ativas por vários lados do país, de perfis diversos e modos de operação também distintos, mas numa mesma alta frequência famintos por estruturar um modo de contar História, de mostrar História, cada História, sem parar de mostrar uma e depois outra, de inventar um modo justamente seu de contar e de mostrar — Cinemateca Capitólio, Cine Humberto Mauro, Centro Cultural São Paulo, Cinemateca do MAM. Há de se notar que, no Recife, públicos e agentes de difusão não podem contar com instituições brasileiras de papel há décadas relevante na apresentação de Histórias do Cinema, como cinemas do Centro Cultural Banco do Brasil, instalados em outras grandes cidades brasileiras e notáveis por suas diversificadas, abrangentes e bem contextualizadas mostras de repertório, seja monográfico, temático ou transversal. A Caixa Cultural operante no Recife há quase 15 anos pôde desde sempre dispor de um cineteatro equipado com um projetor DCP, padrão universal de cinema digital, mas desde sua inauguração preferiu realizar no espaço espetáculos de outras linguagens artísticas. Belo Horizonte, São Paulo, Rio de Janeiro, Porto Alegre, Fortaleza, Brasília. Seriam essas cidades melhores que o Recife em usar o espaço do cinema para espalhar Histórias?
Teste de projeção de Line Describing a Cone (Anthony McCall, 1973), apresentado no Cineteatro do Parque pela iniciativa bcubico. Agosto de 2022. Acervo pessoal.
De UFPE, Parque e Fundaj…
À parte o Cinema da UFPE, reativado plenamente após a pandemia de COVID-19. Essa sala parece ir arquitetando um perfil adequado à natureza de um cinema em ambiente acadêmico, atraindo públicos do campus em torno de uma prática de cineclube continuada, em diálogos com os docentes e discentes do Departamento de Cinema. O ponto de vista ali é experimental, e vai revisitando cinematografias e descobrindo a identidade própria de sua programação e de seu público ao modo de um exercício junto à comunidade universitária. É, lembre-se, um cinema no interior de uma universidade federal, e há um bloqueio simbólico diante de quem está do lado de fora a ser progressivamente dissolvido pelos de dentro, se assim se desejar e fizer sentido. Note-se, por outro lado, que ali se renovam iniciativas cineclubistas, como o muito ativo Cine XHY-247, que vai promovendo sessões também por outras salas de cinema públicas da cidade. É um dado saudável o de que vem sendo acolhido também em outras salas, para outros públicos.
Mas os cineclubes podem ter interesses de pesquisa de partida circunscritos a um pequeno grupo de interlocutores, com a natureza de um grupo de investigação estética ou temática, com seus objetos de predileção menos expansivos, sem a responsabilidade de Pensar uma Política Geral de Difusão. E historicamente funcionam em ciclos, em certo ponto se destituindo — como, no Recife, o Jurando Vingar, o Barravento, o Revezes, o Dissenso, de que fiz parte, entre tantos e tantos outros, geração a geração. Deverão os cineclubes assumir o papel constituído de contar as diversas Histórias? Para quais públicos? Sob qual diretriz estruturante, sustentada, eventualmente orçada e remunerada, à altura do trabalho que fazem? E quando minguarem, se desfizerem, a quem caberá o papel?
No extremo, o centro da cidade, o Cineteatro do Parque. Trabalhei com o Parque durante minha passagem pela Prefeitura do Recife em 2022, e o cineteatro teve naquele ano seu super equipamento de projeção DCP, som 7.1, cuidadosamente calibrado enquanto ia abrigando festivais e sessões especiais. Experiências marcantes nas condições imersivas de uma sala de cinema com imagem e volume no ponto, isso aproxima gente de filme, faz o filme colar na pele e na lembrança. Foi ali que realizamos, no âmbito da Janela Internacional de Cinema do Recife, a estreia mundial da novíssima cópia DCP 4K de A Rainha Diaba (Antonio Carlos da Fontoura, 1972), que seguiu daquela vibrante noite, no cinquentenário do filme, para estreia internacional em mostra de repertório no Festival de Berlim. Não obstante o histórico do Parque de formação de público e de repertório de cinema entre os anos 1990 e 2000, sob programação de Geraldo Pinho, que enchia aquele grande teatro-jardim em tardes de dia de semana para mostrar todo tipo de filme, a gestão de retomada após dez anos de reformas acabou por acolher mais e mais a imensa demanda local e nacional de pautas de teatro, música e dança, num novo perfil de ocupação em que para o cinema pouco cabe espaço.
O Parque, desde 1915 um cineteatro, lugar poroso às ruas do centro da cidade e onde todo tipo de gente se sente à vontade para entrar, está vivo. Mas, salvo rarefeitas janelas de exibição, o cinema foi, grosso modo, empurrado para outros lugares, ainda que a despeito de perspectiva de política de Audiovisual do Executivo de então, numa reação mesma da coordenação do Parque ao turbilhão de abordagens do mercado de produção cultural em Pernambuco e no Brasil. Fizeram-se, no fim das contas, escolhas. E, assim, há meses o projetor quebrou, o cineteatro aguardando agora uma renovação licitatória que ainda corre administrativamente na Prefeitura. Pouco uso pode degradar máquinas robustas e complexas como um bom projetor DCP — o que ocorreu com incontáveis cinemas Pernambuco, Brasil e mundo afora há alguns anos, durante a pandemia, por motivos evidentes, e evidentemente compulsórios.
A História do Cinema da Fundação/Derby é fundamental. De auditório para um cineclube independente a sala de cinema inaugurada em 1997, por muitos anos o Cinema da Fundaj acompanhou com atenção a emergência e a feição mais expressiva dos circuitos de distribuição independentes no Brasil, formando gerações locais de cinéfilos antes ainda que o cinema mundial, que circulava em festivais mundo afora e em mais e mais abundantes prateleiras estrangeiras sob a revolução dos formatos digitais, pudesse ser descoberto e redescoberto mais profunda e abrangentemente por públicos locais, ainda que por meios domésticos, mais ou menos clandestinos. O público da sala no bairro do Derby é cativo e se renova, década após década, e, com a ampliação da gestão de programação de cinema para mais duas salas, Museu e Porto, ao longo dos últimos 15 anos, a coordenação da rede parece se servir de sua boa identidade reputada para ir enfrentando o bom desafio de formar públicos sólidos para as duas salas calouras, tendo a pandemia no meio de tudo.
É perceptível que a Fundaj mantém bons vínculos com instituições como a Cinemateca Brasileira e com entidades consulares de países do Hemisfério Norte, abrigando em seu ano-calendário mostras pontuais de cineastas dos cânones mais basilares ou coleções que chegam prontas de instituições e agências, brasileiras ou estrangeiras, sejam de filmes recentes ou de repertório. Há, também, um vínculo forte com a cadeia produtiva local, e o cinema pernambucano se apresenta de variadas maneiras na Fundaj, por meio de sessões ou recortes de programação eventuais, em diversos formatos e vindo de variados tempos, por meio de interlocuções mútuas. A pergunta a se fazer é se, com os anos, e à parte a boa abertura para iniciativas cineclubistas — inclusive internas, como a Chama Curtas, organizada por assistentes de programação —, a coordenação de cinema da Fundaj não se mantém reconfortada numa relação exclusiva com seus interlocutores de décadas, mais acolhendo o olhar do Outro sobre o Cinema e a História que investindo, estruturadamente, em uma forma de olhar a partir do Recife.
Na prática, ilustre-se, isso significa que se apresenta uma mostra intitulada Clássicos do Cinema Japonês, via parceria com o Consulado Geral do Japão no Recife — mas o que fazer para que públicos possam conhecer aqueles muitos e muitos filmes que estão à parte de compilação estrita de uma produção canônica? Quem é que, numa sala de cinema no Recife, está dizendo o que é clássico e o que não é? No Recife, a História do Cinema se amplia apenas até o alcance de um ou de outro acervo consular, de suas capacidades e de seus interesses? E se se pretender, do ponto de vista de uma sala de cinema em seu próprio lugar no mapa do mundo, demonstrar que é clássico um e outro filme, não disponível num catálogo que se oferece também com seu próprio ponto de vista, externo e estrangeiro? Na prática, ilustre-se, significa que se apresenta uma mostra chamada A Cinemateca é Brasileira – Resistências Cinematográficas, com uma seleção de filmes feita pela Cinemateca Brasileira, que promoveu sua itinerância no Recife e em outras cidades — mas, no Recife, do Recife, quem é que diz quais filmes “exploram a vocação democrática do Brasil”, como propõe a coleção da Cinemateca? E os casos filmados de “resistência” aqui e alhures que porventura não estejam no pacote oferecido? Temos mesmo, aqui no Recife, de contar a História da Democracia no Brasil mediante visão circunscrita a um olhar sediado, situado, formulado na Região Sudeste, remetido da Região Sudeste, contar qualquer História que seja na perspectiva de olhar enviado pronto de onde quer que seja?
À parte a legítima e oportuna validade dessas e de outras mostras poderem circular, a capital do cinema no mundo, do filme local sobre Memória que neste 2026 atinge o topo da grande indústria global, precisa mesmo esperar outrem, recorrer ao interesse de outrem, outrem que aterrissa aqui, ou vem falar de distante daqui, para contar histórias do mundo, uma história do Brasil, mesmo uma história de outrem vista daqui, uma história do cinema, as histórias do cinema? São relançados e redistribuídos filmes brasileiros como A Hora Da Estrela (Suzana Amaral, 1985), São Paulo Sociedade Anônima (Luiz Sérgio Person, 1965), o Recife pode vê-los e revê-los, isso é muito bom. Mas é preciso que uma empresa distribuidora sudestina ofereça um filme de repertório, um filme de patrimônio, para que o público recifense tenha a chance de redescobrir filmes de outros tempos em sala de cinema? E quem lhe dá a ver os contextos? E quem lhe dá a ver aqueles outros filmes restaurados, inclusive vários brasileiros, que não ganharam e não ganharão nova distribuição comercial? Quem está, no Recife, contando a história para o Recife? O que falta para o Recife decidir contar uma história e, aí sim, buscar uma maneira de contá-la? Para perceber que é hora, aqui mesmo, de apresentar certas histórias do cinema e então, aí sim, buscar os meios e os materiais de filmes onde quer que estejam?
Por que não, como instituições de referência em formação de público, e uma vez se vocacionando para a formação proativa de repertório, poderiam colaborar inclusive com a digitalização ou a restauração de um e de outro filme brasileiro, quiçá de outra parte do Sul Global — não necessariamente pernambucano — para que se possa exibi-lo, aqui e para além? Isto está sendo feito por várias partes do Brasil, e há exemplos recentes mesmo com agentes situados em Pernambuco, via iniciativas por vezes independentes do Estado. Mas já há tanto mais, já há o imenso volume de trabalho de restauro já feito, à disposição. Há interlocutores, das mais variadas competências técnicas, críticas e criativas, disponíveis por todos os lados, e há tempo para consolidar soluções administrativas em cada instituição respectiva, se essa é uma questão. Mas é uma questão para qualquer cinema público, e o tempo passa.
Enquanto passa, há cinemas públicos ou privados de cidades brasileiras contando a História com fome de contar. Ou o Recife não está interessado em contar História? Ou ao Recife só interessa “a História pernambucana”, “a história do Cinema Pernambucano”, como se existisse uma História sem poros diante de outra História? Será que, nesta cidade portuária, os públicos estão se fazendo satisfazer com uma História pernambucana ensimesmada, aliás como se fosse ela um dado fixo e, uma vez documentado, imóvel, referente apenas a si mesmo, como se também ela não tivesse o merecimento expressivo de ser posta em relação e diálogo ativo, crítico com as Histórias que transitam Brasil adentro e pelos mares diaspóricos afora e com as oportunas marés que chegam ao seu modo próprio só na costa desta capital?
Há, sim, os diversificados festivais e o histórico recente mas já vistoso de festivais realizados na capital pernambucana. Mas são sazonais, são cada um ao seu modo naturalmente limitados, a começar nanicos diante do que é o trabalho sistemático ao longo de um ano-calendário. Festivais não têm a envergadura para representar de todo a Política de Difusão de Estado numa cidade, em nenhum dos seus âmbitos, nem municipal, nem estadual, nem federal. E essa precisaria ser uma outra conversa, já que estamos falando da atividade continuada de Instituições de Difusão. Teria o Estado confortavelmente delegado sua responsabilidade em formar repertório em Cinema e Audiovisual para as ações pontuais de festivais?
Não há como dizer que os festivais no Recife têm dado conta do que é suficiente, à altura do que a cidade ela mesma hoje representa para os cinemas brasileiro, latino-americano e mundial, sobretudo no que tange a uma prática de difusão e discussão da História do Cinema que se compreenda como necessariamente cotidiana e continuada — “História Permanente do Cinema”, como foi nomeada há muitos anos faixa semanal constante na programação do Cine Humberto Mauro, muito bem equipado e vivo cinema público mineiro. Como política pública de difusão, os festivais — aqui no Recife, tão majoritariamente mais interessados no “novo” do que no “velho” — são instrumentos muito especiais, vitais e em alguns casos podem ser mesmo centrais, mas não teriam, em lugar nenhum do mundo, a capacidade de ser mais do que suplementares.
No saguão do Cinema São Luiz, debate em torno da mostra L.A. Rebellion, curada no Brasil através da Janela Internacional de Cinema do Recife. Novembro de 2017. Acervo pessoal.
…ao São Luiz
Entre outubro de 2024 e fevereiro de 2025, cumpri um contrato temporário de quatro meses, em princípio com a perspectiva mútua de renovação, para coordenar a reabertura da programação do Cinema São Luiz, que desde a pandemia vinha passando por publicamente notórios períodos de inatividade, devido a variadas questões técnicas, estruturais e administrativas. Com toda a edificação dos espaços internos circunvizinhos à sala de cinema em processo de bem-vindas obras — que decorrem mais de um ano depois —, iniciamos a operação de abertura do cinema apenas aos fins de semana, sob a rubrica que batizei “Fins de Semana no São Luiz”.
A programação apresentada, os modos de mediação, recepção e apresentação e os resultados gerais de base daquele “Ciclo Especial de Reabertura do Cinema São Luiz” foram, são e estão públicos, e por ora basta considerar que minha proposta residiu essencialmente no desenho de uma alternância intercambiada e balanceada entre lançamentos, em circuito comercial ou em pré-estreia, ativações junto a sessões de cineclubes e festivais, e, no centro, no coração de cada fim de semana de programação, a difusão ativa de repertório, com títulos renovados semanalmente, em princípio quase exclusivamente de cinema brasileiro/com participação brasileira. Aproveitávamos justo o ambiente de novíssimas digitalizações e restaurações de filmes brasileiros e íamos atrás delas — como a cópia 4K de Também Somos Irmãos (José Carlos Burle, 1949), em parceria com a Cinemateca Brasileira, ou a cópia 4K de Um É Pouco, Dois É Bom (Odilon Lopez, 1970), em parceria com a INDETERMINAÇÕES, plataforma independente —, e aproveitávamos, estrategicamente, já o calor generalizado em torno do cinema brasileiro, com o caso de Ainda Estou Aqui (Walter Salles, 2024).
Era hora de ampliar, é hora de ampliar, de seduzir gente, de fazer gente descobrir. Para as sessões de repertório, entendi nesse sentido a oportunidade, a ser mais explorada aqui e alhures, de programar cotejos entre curta-metragem e longa-metragem de diferentes tempos e naturezas materiais, geográficas, artísticas. Assim, quem vinha assistir a Terra Estrangeira (Walter Salles, Daniela Thomas, 1995), descobria junto Liberdade (Pedro Nishi, Vinícius Silva, 2018), programado em parceria com os realizadores, e quem vinha assistir a Cabra Marcado Para Morrer (Eduardo Coutinho, 1964-1984) descobria junto o Discurso de Jaime Amorim em São Bento do Una (MST-PE, 1998), programado em parceria com o Acervo do Vídeo Popular em Pernambuco, iniciativa independente. Estava engatilhado o plano de prosseguir com a apresentação de corpos de obra parciais, quando possível integrais, com títulos se somando a um repertório acumulado semana a semana, conversas em torno de cada mostra prevista. Baita entusiasmo.
O Cinema São Luiz é “cinema de calçada”, como dizia Geraldo Pinho. É um lugar privilegiadíssimo para fazer quem quer que seja, vindo de qualquer lugar que seja, pois assim ali é, buscar um cinema e esbarrar em outro. Difundir: não só programar, incluir na programação, mas descobrir junto, pôr à disposição e apresentar justamente, com os devidos lastros, para quem chega e lê uma nota de curadoria, para quem ouve e responde a uma mediação. “Como faço para mostrar esse filme a meu pai, que morou perto do Engenho da Galiléia?”, me pergunta o rapaz em lágrimas. Ir e retornar para ver outra coisa e ir de novo. Espalhar.
Minha decisão por não renovar o contrato foi se prenunciando à medida que a proposta em curso, apresentada e pactuada na Fundarpe, encontrou os ruídos esperados da máquina pública — eles mesmos, os desafios de um cinema público numa cidade que, em muito (Prefeitura, Governo Estadual), até aqui não formalizou consistentemente seus instrumentos de promoção executiva de cultura e artes, ou particularmente de cinema. Há uma pedagogia a ser feita internamente no interior de uma engrenagem polifônica que tem de juristas e administradores a profissionais da cultura pouco familiarizados com as dinâmicas próprias dos mercados de cinema, e ela precisa pragmaticamente se traduzir como direção institucional, no progressivo alinhamento entre os diferentes departamentos que participam da construção de instrumentos administrativos, o que comumente poderá ser processual, lento e mesmo moroso perante a necessidade imediata, semana a semana, da execução.
Ao longo daquele processo, diante dos entraves que se impunham, apresentei a setores da Fundarpe dezenas de documentos que pudessem colaborar como referência para a construção de modelos executivos viáveis, entre minutas de contrato e regimentos de operação fornecidos por parceiros variados: gestores de cinemas em cidades como São Paulo, João Pessoa, Goiânia, Brasília, Porto Alegre e Belo Horizonte, além de distribuidores, arquivos e empresas produtoras brasileiras. Para a transição de gestão, produzi documentos de relato, balanço e notas técnicas e conceituais gerais e específicas. A coordenação que se sucede no São Luiz vai completando um ano e, com um perfil diferente que, depreendo, se readequa à realidade executiva da Fundarpe a este ponto, encontra suas maneiras de manter vivo, em pleno Recife, o cinema mais famoso do mundo — podendo a propósito contar com o fenômeno O Agente Secreto.
Mais bons tempos continuarão vindo, apostemos. Mas, sim, no bom e precioso avesso do que é O Agente Secreto — o topo, para um filme sobre Memória e História —, há a base. E há modelos de Difusão Proativa, Continuada e Estruturada de Repertórios de Cinema, de História e Memória do cinema, e via cinema, expostos por todos os lados, por várias cidades do Brasil e do mundo. E há o Recife. Como vem o Recife olhando, ativamente, para o país e para o mundo, a partir daqui, com os públicos que se encontram em salas de cinema no Recife? Qual forma de pensamento, com os filmes e diante dos filmes, se lega, continuadamente, aos públicos da capital do cinema no mundo?
Detalhe de arquivo guardado na Filmoteca Alberto Cavalcanti. Março de 2023. Acervo pessoal.
O problema dos arquivos e o silêncio de um arquivo
Recife, no âmbito federal, a Fundação Joaquim Nabuco é uma instituição nacionalmente reputada na preservação de arquivos de diferentes naturezas materiais, em especial fotográficas e impressas, e mantém uma Filmoteca própria. Coliga-se a ela, nos últimos anos, a Cinemateca Pernambucana, nome-fantasia que articula promoção do cinema local e organização de acervos cinematográficos também locais, estritamente realizados no/com o estado de Pernambuco.
No âmbito estadual, há o vasto acervo do Museu da Imagem e do Som de Pernambuco, o Mispe, fundado em 1970 ao mesmo tempo que a própria Fundarpe — Fundação do Patrimônio Histórico e Artístico de Pernambuco —, e como instrumento seu. Progressivamente encolhido e desprovido de investimentos por décadas, o Mispe teve sua reserva técnica vulnerabilizada ao longo de inúmeras gestões estaduais que se sucederam, a despeito da preocupação crônica de quadros técnicos de base que sabiam o que tinham em mãos — de maquinários a milhares de arquivos audiovisuais, visuais e sonoros brasileiros, inclusive pernambucanos, e mesmo de conteúdo estrangeiro —, mas pouco tinham o que fazer sem recursos suficientes para se fazer algo.
Na gestão estadual atual, a Fundarpe enfim aportou investimentos de monte razoável, por meio de pleito estruturado junto a Fundos estadual e federal, e, com supervisão técnica renovada e em relação com laboratórios brasileiros, setores próximos sabem que nos últimos anos tem havido bom trabalho em curso no sentido de revisar acervos, mitigar danos anteriores e recuperar materiais de relevância para manutenção e uso futuros, inclusive a difusão pública. Desafios permanecem imensos, mas boas novidades devem vir à tona ao seu tempo, o tempo mesmo de um trabalho de minúcia e atenção ao detalhe que é da natureza da lida ativa com arquivos, não obstante estratégias políticas naturais a Governos, que por vezes podem modular ao sabor da sua Comunicação Pública os sentidos e limites de um trabalho técnico.
Mas inanição grave em âmbito municipal permanece. Quando assumi a chefia do Setor Audiovisual no Recife, em 2022, meu antecessor no cargo Luiz Joaquim atentou para as perspectivas que punha em curso na FCCR — Fundação de Cultura Cidade do Recife — diante da situação de acervo que eu mesmo até então desconhecia, organizado sob a rubrica Filmoteca Alberto Cavalcanti, ou Cinemateca Alberto Cavalcanti. Note-se que sequer a natureza do ente (Filmoteca ou Cinemateca?) ou a história de fato desse acervo estão devidamente consolidadas, seja em versões formais ou informais. As histórias orais, contadas por quem viveu a máquina de cultura municipal, de um modo ou de outro, nas últimas décadas, por ora convergem e por ora se dissociam, mas é dado que o arquivo estava já há anos guardado e vinha sendo ampliado em sala dedicada na planta administrativa anterior do Cineteatro do Parque, antes do seu fechamento para reformas em 2010 — para reabertura apenas em 2020.
Fazem parte da Filmoteca Alberto Cavalcanti centenas de rolos de película em Super-8, 8mm, 35mm e, especialmente, em 16mm — contendo materiais de todo o século 20, entre cinejornais, registros ocasionais de remotas décadas de Carnaval, da cidade do Recife e de regiões de Pernambuco, registros oficiais com a participação de figuras públicas e grandes filmes do Cinema Brasileiro, em boa parte realizados no estado. Muito particularmente, o acervo contém muitas dezenas de arquivos em VHS e DVD, fitas de vídeo analógico ou arquivos digitais que essencialmente correspondem ao período entre os anos 1990 e 2000, reunindo materiais televisivos, informativos e educativos de toda sorte de preciosidade histórica e o espólio de editais de incentivo locais e do fecundo Festival de Vídeo de Pernambuco, realizado no Parque até o início deste século, e que àquela altura formava cinéfilos e cineastas.
De acordo com pesquisas do professor e pesquisador Paulo Cunha, reunidas em artigo publicado na revista Rua por Cunha e por Igor Calado, O conceito de preservação à luz do projeto de implantação da Cinemateca da UFPE, “a pressão pela preservação de materiais foi (…) tema de dezenas de artigos e reportagens na imprensa de Pernambuco desde os anos 1960, diante da preocupação com o risco de deterioração ou perda de parte importante dos filmes realizados no estado desde os anos 1920”. Faz sentido que, numa resposta institucional dos tempos, o Mispe tenha sido estabelecido (com a Fundarpe) em 1970. Também nesse texto, os autores destacam que foi Firmo Neto, cineasta e laboratorista pernambucano “que iniciou sua carreira como cinegrafista da produtora Meridional Filmes, ainda nos anos 1940, o responsável pela preservação pessoal de muitos filmes rodados em Pernambuco a partir desta década, notadamente aqueles realizados por encomenda do setor público a partir do Estado Novo. Dessa dedicação pessoal surge a parte mais importante do que hoje se encontra na Cinemateca Alberto Cavalcanti”.
Conta-se entre técnicos de longeva atividade na Prefeitura que expansões do acervo vieram através de parceria com a Cinemateca Brasileira, que a certa altura cedeu à Filmoteca Alberto Cavalcanti cópias de alguns filmes que também ela teria mantido em seus arquivos, e de depósitos individuais de cineastas ou instituições. Com o advento de editais, note-se: o I Concurso Ary Severo e Firmo Neto de Roteiros de Curta-Metragem foi promovido em 1993, premiando o roteiro de Cachaça (Adelina Pontual, 1995), filme central na história do curta-metragismo brasileiro, e com cópia guardada na Filmoteca. E com o advento do vídeo, note-se: no ano de 1999, como está registrado na cobertura de então realizada por Luiz Joaquim e disponível nos arquivos de seu portal Cinema Escrito, realizou-se o I Festival de Vídeo de Pernambuco, sendo que já a linha fina do texto anuncia os vencedores do Concurso Ary Severo e Firmo Neto de Roteiros daquele ano: “Hilton Lacerda e Marcos Enrique Lopes recebem, cada, R$ 60 mil para iniciar carreira solo no cinema”. As dezenas de arquivos de cada edição do Festival de Vídeo através dos tempos estão guardadas na Filmoteca — e hoje sabe-se, no campo da realização e da preservação audiovisual, da dificuldade muito específica em preservar, décadas adiante, materiais em fita analógica e digitais, que se perdem em gavetas, em suportes apodrecidos ou corrompidos, em extensões de arquivo digital obsoletas ou em nuvens expiradas.
Detalhe de arquivos guardados na Filmoteca Alberto Cavalcanti. Março de 2023. Acervo pessoal.
O supracitado artigo de Paulo Cunha e Igor Calado, publicado em 2016, saiu num contexto em que já há anos o acervo da Filmoteca Alberto Cavalcanti havia sido realocado, em caráter presumidamente provisório, no Museu da Cidade do Recife. Catalogações e revisões realizadas no período, por iniciativa independente de técnicos preocupados que viriam de dentro e de fora da Prefeitura, e a que tive acesso em versão impressa em 2022, à altura já davam conta das condições “precárias”, como denota o artigo, em que se encontravam os materiais. A gestão do Museu e o grupo da UFPE igualmente pareciam temer o futuro da coleção, o museu tentando mantê-la resistente sob o melhor acondicionamento possível, mas sem espaço ou recursos dedicados, e os pesquisadores universitários pleiteando termos de comum acordo para requerer sua guarda e operação em espaço de sua própria supervisão, enquanto a Prefeitura de 2013 a 2021 sequer tinha um quadro ativo de gerência ou chefia específica em Políticas de Audiovisual.
A disputa ficou pelo caminho e, apenas no início de 2023, mais de dez anos após o acervo ser deslocado do Cineteatro do Parque, e sob crescente temor do Museu quanto ao estado de sua preservação, a coleção retornou para o prédio original, agora em novo cômodo onde as gestões municipais de Audiovisual e do Parque reconheceram a oportunidade de um abrigo possível, minimamente adequado. Em continuidade à proposta de Luiz Joaquim, e na sequência de diálogos que travei ao longo de um ano com gerências da Fundação e da Secretaria de Cultura municipais, com as administrações do Museu e do Parque e com técnicos em preservação parceiros, completam-se três anos desde que a Filmoteca Alberto Cavalcanti foi reinstalada numa sala própria, com dois aparelhos de ar condicionado, e mobiliário para seu armazenamento disponibilizado informalmente pelo Parque e pelo Museu.
Deixei a prefeitura no mês de março daquele ano após passar algumas semanas dedicado à sala e ao arquivo, armazenando, organizando e revendo os diferentes materiais. Em particular reintroduzi, em planilha aberta a colaborações, as informações catalogadas constantes no material redigido mais de dez anos antes e, ainda no que tange aos formatos em película cinematográfica, destaquei pontuais divergências entre a catalogação anterior, feita em detalhe como se pôde à altura, e o material que agora tinha diante de mim, indicando também o que à primeira vista me parecia mais valioso ou historicamente raro, precioso, no sentido de uma eventual recuperação de itens. Com luvas e máscaras para me proteger do que encontraria no interior de cada lata — ou, em uma dezena de casos, no interior de embalagens de pizza —, abri cada um dos invólucros para atualizar, uma década depois, minha impressão superficial quanto à gravidade do estado físico em que os materiais se encontravam. Não foi preciso conhecimento técnico avançado para perceber o que, de maneira generalizada, estava acontecendo.
Não obstante ter continuadamente, ao longo de um ano, tratado da urgência do caso Filmoteca/Cinemateca Alberto Cavalcanti inclusive em reuniões de Gabinete, e, na transição de meu cargo, legar relatórios e a catalogação atualizada, com as devidas sinalizações, a setores da FCCR e da Secult, na esperança de avanços e desenvolvimentos do trabalho, um ano depois descobri que mesmo entre trabalhadores vinculados à administração e à operação do Audiovisual municipal havia relativo desconhecimento de que o acervo estava novamente guardado no Parque. Três anos depois da reinstalação da Filmoteca, busco notícias apenas para descobrir que o acervo permanece simplesmente armazenado, sem qualquer revisão técnica empreendida desde então.
Informalmente, pode-se contar com uma telecinagem razoável dos materiais em 16mm, realizada em 2012 de modo improvisado, por iniciativa independente, no interior do próprio Parque e por seus trabalhadores, antes que o material fosse retirado do prédio, prestes a ser evacuado. Os arquivos, guardados em meia dúzia de HDs pela comunidade interessada, estão encriptados em resolução digital intermediária, inferior à original, e em pacotes de arquivos de áudio e vídeo com extensões mais do que obsoletas, mas é possível acessá-los digitalmente através de softwares há muito descontinuados ou em alguns programas de edição avançados.
A visualização das reproduções é, com frequência, boa. Das fontes originais, há de se esperar o pior para eventualmente, desavisadamente, ter uma ou outra boa surpresa quanto à perspectiva de alguma recuperação, à expectativa de algum caso de possível recuperação — se algum trabalho for feito, afinal, e para já. Se cabalmente não há estrutura ou desejo político para se fazer um arquivo voltar à manutenção, à atividade ou à vida devidas, ainda que primeiramente aos modos de reserva técnica responsavelmente supervisionada, ao menos a esse modo, ao tempo próprio desse modo, passo a passo de um novo processo, não seria o caso de uma instituição reconhecer o dado escancarado de que tem estritos limites e remover um acervo de importância, a seu modo única em qualquer escala, para uma estrutura funcional, tecnicamente habilitada, mantida por outrem? São necessários recursos, recursos continuados. Ou algo será, a este ponto, enfim feito internamente? Qual diretriz poderá garantir que haverá recursos — humanos, financeiros, administrativos, políticos — sustentáveis?
O apego à Reputação de um Poder é tão grande a ponto de que, colateralmente, se deixe Histórias desaparecem entre fungos, até que não reste nem lembrança, até que ninguém mais se lembre de que um dia houve ali o que guardar e lembrar? A proporção do apreço à Comunicação Política é tão grande a ponto de que, no compasso de uma estratégia Da Maior Importância, se admita deixar as Histórias grafadas em vídeo, imagem, gravadas em áudio, voz, morrerem? Uma decisão há de ser tomada — trabalhar ou recuar ativamente, prudentemente —, ou aquela sala se tratará mesmo de um cemitério de rolos de película intoxicando estantes de diversificados, ricos e plurais materiais em áudio e vídeo analógico e digital, cujo estado atual ainda precisará também de uma análise, e certamente também de recuperações. É o avesso do avesso do avesso na capital do cinema no mundo: há (e haveria), ali, imagens do Brasil, mas há (e haveria) sobretudo a história do cinema e do audiovisual em Pernambuco, a Memória e a História das imagens do estado, e da cidade e do estado adentro via imagens. Há, ainda há a História, mantida em segredo na capital pernambucana.