Ao que é um, os sábios dão muitos nomes:
Agní, Yama, Mātariśvan.
(Rigueveda)
I.
Três vezes em três antigas línguas temos, em Tannhäuser (Vinícius Romero, 2026), enunciados cosmogônicos: em latim era o som, em grego o sussurro, em hebraico a expiração. Começar a cada vez em cada mundo, infinitas vezes, possivelmente. Isso me lembra os textos védicos sobre a origem do que há, todo aquele conjunto aberto de repetições que vão, sempre novamente, narrar uma sequência diferente de eventos em que o que acontece é substancialmente o mesmo. Em cada variação cosmogônica mudam os nomes das divindades que desempenham o papel da primeira criação – que, não sendo ex nihilo, consiste em passagem, em movimento do invisível ao visível, da potência ao ato; muda aquilo que é dito estar lá nesse momento originário em que alguma coisa vai ganhar alguma forma e com isso nos encaminhar de volta ao real que agora conhecemos ou julgamos conhecer; muda sobretudo a linguagem. Dentro de um mesmo mundo, então, essa multiplicidade toda, excessiva. No início: isso, aquilo, aquilo outro. O que exatamente? Quem pode me dizer, na verdade, o que aconteceu com a precisão de um conteúdo historiográfico? Ninguém, claro: há uma honestidade na variação sem fim. Estamos falando do próprio início da história, de sua condição de possibilidade. Mais uma narrativa, mais uma versão, a variação nunca cessará desde que haja alguém com interesse em começar de novo. É como se, no ar, um organizador de antologias traçasse multidão estonteante de curvas e parábolas para dizer – com olhos de reprovação, com certa dureza na organização do rosto – que você se perde a cada vez que perde de vista a linha única que tudo atravessa. Exercício de atenção. O múltiplo é o teste derradeiro do um. Começa de novo.
II.
O filme se mostra em sete partes numeradas. Cada uma parece forçar um novo início. Não importa o que tenha acontecido antes, o senso de continuidade tem mais a ver com o fato de que não nos livraremos, até o fim – o “fim” –, da multiplicidade e da repetição como maneiras de sugerir alguma coisa. Um exercício de paciência, um estudo acerca das muitas formas de fazer ver a mesma formalidade. Há uma afirmação, na abertura da parte II, de que existe um protagonista ali, de que estávamos, inclusive, acompanhando seus passos e algum dilema, mas nada em tela parece nos situar nesse sentido. Chega mesmo a ser surpreendente descobrir que havia algo dessa natureza ali no meio. Afinal, tudo vai se impessoalizando na proliferação de imagens que nunca nos dão contornos inteligíveis e bem assentados de uma figura-centro antropomórfica, pois não é bem assim que se traça a linha da mesmidade. Forças maiores nos acompanham. Uma flor desperta, luas dançam, as ondas se quebram – o humano: no máximo, talvez, em fragmentos e plano fechado. O que parece governar de fato Tannhäuser é a forma-eco, o retornar do retorno do já-dito, a repetitividade em si. Algo insiste ali que, na verdade, é a própria insistência. Mais uma vez, recomeçamos: “Nada restou – salvo o eco da palavra anterior”, diz a tela.
Há um conjunto singular de versos no Rigueveda, conhecido como “hino da criação” [10.129], que reúne certa simbologia recorrente em narrativas cosmogônicas, como a informalidade – aformalidade, pré-formalidade – da água ou da escuridão, assim como afirmações sobre um tempo anterior às dualidades que conhecemos: imortalidade e morte, existência e inexistência, noite e dia. Nesse sentido e em alguns outros, parece mais do mesmo. Só que há uma série de perturbações costuradas na sintaxe, na métrica e na semântica para dar a impressão de incompletude: o hino eventualmente revela que nem mesmo a divindade que lá estava no começo de tudo pode nos informar sobre o que exatamente protagonizou. O último verso termina na ausência de um complemento para o verbo “saber”, uma quebra, uma queda no abismo já anunciada pelo desarranjo proposital do som. É como se pudéssemos apenas recuperar uma forma sem conteúdo e que, por isso mesmo, pode ser reencontrada em qualquer conteúdo. Nada que possamos compreender protagoniza verdadeiramente, é uma questão de desistência, de abraço da finitude como etapa prévia ao encontro derradeiro com o infinito. O que há antes de todo e qualquer protagonista? Recomeçamos de um jeito diferente.
A potência mais interessante do não-saber, como muito bem sabe um tanto de variações do que podemos chamar “cinema experimental” – que, às vezes, é outro nome para o hinduísmo – é a abertura para o deslocamento de si: começa com um descentramento, o eu não é senhor em sua própria narrativa e tudo o mais. Afinal, o que sou = o que é, e isso significa que estou muito bem equivocado sobre mim mesmo, preciso fazer alguma coisa quanto a isso, um exercício de desidentificação, estranhamento e desprendimento de si, da própria ideia do “si”. Tudo vai se impessoalizando na proliferação de imagens e isso pode ser uma oportunidade. Recomeça-se de uma maneira diferente até não mais haver recomeços. Se é para haver alguma coisa, não há outra opção “salvo o eco da palavra anterior”.
III.
As ondas se quebram e quebram e a mesmidade vai se tornando estranhamente errática. A parte III do filme nos exibe repetitivas sequências marítimas – repetitividade que se pode atribuir, em certa medida, ao próprio mar em seu vai-e-vem inevitável – que vão involuntariamente se transformando em cenário para um naufrágio narrado em texto: o diário de Capitán Francisco Alvarado. Sem as palavras desse infortúnio, as águas certamente pareceriam mais tranquilas, pouco temíveis: apenas tardes triviais e surfistas, banhistas, fins de semana. E, apesar do desencontro entre o que se vê e o que se lê, tudo vai se misturando no plano imagético – do que se reflete na imaginação – ao ponto daquilo tudo ser ou poder ser, sim, a experiência desorientadora de uma perda. Cada corpo humano flutuando no mar agora parece ruína, ou pelo menos anuncia a possibilidade de uma tragédia. E as palavras seguem vindo, reorganizando a repetição como ponto de partida para uma dissolução das fronteiras, para a emergência de um corpo vazado que não afunda – e existem muitas formas de não afundar, devir-destroço e devir-oceano. O que se periga perder de vez ali é um senso de identidade.
A dissolução não se restringe a quem escreve. São quase vinte minutos em que, de acordo com o texto e com o passar do tempo, diário se torna território e, por outro lado, mar se torna narrativa, céu se torna livro, existência se torna capítulo, salvação e perdição se tornam página e tudo vai sendo o que não é porque tudo é a mesma coisa, tudo é livro, e é esse fato que torna inevitável e compreensível a existência como eco. E continuamos vendo mar e mar e mar. A escrita é assombrada por uma anterioridade insistente, o temor de que “cada palavra que escrevo já tenha sido escrita antes e melhor por outra pessoa”, quando o problema da criação vai decaindo na síndrome de impostor. Um resquício perigoso do eu, sim, uma de suas formas mais estúpidas, sim, mas a dissolução felizmente segue implacável no seu curso e a anterioridade vai se tornando algo outro: “Escrevo e releio minhas próprias palavras, mas elas me antecipam em dois dias. Estou sendo lido”. Em breve, parece que não restará nada “– salvo o eco da palavra anterior”. Como pode, aliás, a palavra antecipar o sujeito? De que experiência se fala aqui? Daquela de que não se pode falar, sobre a qual é melhor se calar, talvez; o filme é bem silencioso.
“Algumas palavras estão sublinhadas ou repetidas, possivelmente indicações de delírio ou, como o próprio Alvarado sugere, de premonição”. Nunca houve um começo de escrita de diário porque nunca houve começo de fato, porque haverá ainda começo novamente no futuro, porque começo = eco, porque o que resta de tudo quando você retira tudo de tudo é o que permanece, a própria permanência, e todo senso cronométrico de tempo e temporalidade perde o sentido de maneira brutal. Esse capitão que encontra sua experiência profética na desgraça e na passagem do quantitativo ao qualitativo, enquanto autor, coisa separada e individuada, também é verdadeiramente eco, e isso é mais importante do que entender como ele se relaciona com o “protagonista” em termos de conteúdo biográfico.
IV.
As ondas se quebram e quebram e vão embalando um semi-transe, nem aqui nem lá, o filme é bem silencioso, mas o mundo jamais poderá ser – o que implica na existência de uma trilha sonora involuntária para tudo, inclusa a imagem-mar que hipnotiza. Um crac crac crac que retorna em sequências muito bem organizadas, mastiga a boca misteriosa atrás de mim na sala de cinema, e a potência hipnótica da imagem é reafirmada, não contrariada. Só uma pessoa mais velha, ou talvez filha de médico, para fazer da mastigação um rito mecânico assim, a cronometria impecável, uma preocupação com a saúde e não com a vida social – crac crac crac me dá a solidez figural do dente, uma dimensão sonora da maquinaria anatômica, é como ler a Ilíada. Há também o som da embalagem metálica, que não sei como reproduzir em onomatopeico, shuashshuash, talvez, a mão entra, a mão sai, crac crac crac. A repetição, no plano sensível, se fosse mesmo possível falar dele em sua desconexão com todo o resto, parece-me algo impossível de se experimentar. Eu sei que é o mesmo retornando, ou melhor, crac crac crac, então falar em retorno já é falar em mesmidade. Só que a imagem não é o concreto, embora com ele partilhe certas qualidades, por isso se misturam os crac e as ondas em outro registro. As ondas se quebram e o que experimento como cinema é deriva, subproduto, desdobramento e negação do fato mais bruto da repetição. Sem isso, não seria possível o transe, essa variação qualitativa da quantidade.
E segue crac crac crac, onda quebrando quebrando quebrando, vai e vem e vem e volta, mais uma vez, a matemática é uma distração, o um não é uma coisa. Se eu traço uma linha no quadro e digo que “unidade” é o indivisível, se falo de Euclides e defino a unidade como condição de possibilidade para que cada coisa seja dita “uma”, se uso essa linha, esse segmento para dizer “unidade”, estou criando uma distração – ainda que para fins pedagógicos. Não é possível representar graficamente – inscrever na tabula sensível — esse um que dá o múltiplo porque tudo que é materializado pode ser eventualmente dividido em partes, mostrando-se assembleia. Eu traço uma linha no quadro e falo em “unidade”, você olha para o meu dedo indicador, você olha para a marca-de-tinta, crac crac crac, alguém mastiga atrás de você procura ali o abstrato, ele não está em lugar algum. Você procura Deus e o começo das coisas. A matemática é uma distração, isso quando desenhada, claro, quando são curvas e parábolas no quadro. Ela é um ensaio, porém. Um exercício de atenção, crac crac crac. Exercício de paciência, também. Se você faz correr uma sequência de registros do mar, se você aponta para o quadro, a questão é quando nós iremos, de alguma forma que nunca conseguimos recontar, atravessar o arquivo em direção ao absoluto.
V.
Há uma dureza na proposição védica de que o mundo que julgamos conhecer, com o qual temos familiaridade desde o início, é um amontoado de ilusões. Sabe-se bem que Platão tentou resolver isso pensando um mundo de gradações ontológicas, uma escadinha com muitos degraus de ser e verdade até chegarmos no absoluto, no qual absolutamente não podemos permanecer. Como quem tenta nos oferecer uma passagem do aqui-e–agora para o eterno e de volta. Por outro lado, fico pensando na insistência lírica, poética na proliferação, a multidão de divindades no hinduísmo; quanto mais coisa aparece, menos importa que alguma coisa apareça – melhor: menos importa alguma coisa e muito importa a própria mecânica do aparecimento. Brincar com repetições pode ser um estudo. Se é estudo, é amor. Isso acaba nos dando, na verdade, como é bem possível de se experimentar em Tannhäuser, a ideia de um gosto pela multidão, as lentes trocadas para fazer ver cada vez mais, as variações cromáticas do mesmo, um passeio pela diferença que, por mais que sirva de iniciação ao um, não deixa de apontar a beleza possível em toda aparência, no próprio fazer-aparecer. Certo apreço, inclusive, pelo recomeço, pelas muitas vias do começo e não tanto pelos fins. Mecânica, repetição, transe – passagem contínua do quantitativo ao qualitativo até o ponto de dissolução dos binários e, portanto, das fronteiras.
VII.
O mundo que conhecemos é o mundo que imaginamos, e a imaginação adorna o mundo com as cores do sentimento, dizia Hume. Som, sussurro, expiração, tinge-se um gesto, um movimento, um começo – contorna-se, timidamente, o informe, o pré-formal, o abismo.