DIÁRIO #6: A MAGIA DO COMUM | Os Vivos Caminham A Terra (Pedro Maia Brito, 2026), Tiró É A Onça (Wera Poty, 2026), Se Eu Fosse Vivo… Vivia (André Novais Oliveira, 2026)

Com a exibição de Os Vivos Caminham A Terra (Pedro Maia Brito, 2026), a Mostra Caleidoscópio reiterou seu especial interesse no cinema experimental ou, como dito num outro diário, em sua emulação. A Mostra Competitiva dá um salto na aposta quando busca filmes em que a experimentação reside no erro, naquilo que não há tanto de polimento em sua composição. No penúltimo dia, a sessão entrou em seu ponto alto com dois filmes que trabalham a fantasia e a experimentação da linguagem por caminhos bem distintos.

★★★

Tela preta. Uma voz narra que tudo era a Eternidade, até que a Metamorfose tomou seu lugar. Imagens de buracos negros, galáxias, desertos, velas queimando. Em Os Vivos Caminham A Terra, um Homem (Nivaldo Nascimento) vaga pelo Tempo em busca de algo, até chegar num castelo. O longa-metragem segue reafirmando o que havia pensado sobre a Mostra Caleidoscópio no Diário #4. Vemos o Homem surgir numa poça escura, como um recém-nascido do caos. Ele caminhará incessantemente até o fim do longa e seu trajeto será acompanhado através de um excessivo uso de câmera lenta.

Apesar da excelência técnica, como no efeito especial em que a luz num tronco de uma árvore se torna a tocha do Homem caminhando na caverna, a tentativa de criar uma atmosfera abstrata e desafiar o público a sentir o tempo resultou num amontoado de paisagens sobrepostas. Quadros e texturas se repetem exaustivamente, imagens desgastadas, tentando construir um suposto surrealismo. A forma, inerte, tenta forçar um mistério inexistente, que tem pouco ou nada de uma essência metamórfica, como prometido de início.

★★★

Em Tiró É A Onça (Wera Poty, 2026), observamos um membro de uma aldeia indígena carregar um aparelho de captação de som. Logo atrás, um outro carrega arco e flecha. São as ferramentas, as armas da mata, do cinema. No curta-metragem, veremos uma equipe de filmagem trabalhar num outro filme, interno a este, em que narram sobre a Onça. Não o animal, como conhecemos, mas como um humano que é possuído pela Onça. Sem se preocupar em expor seus artifícios, o filme busca que a sua história seja conduzida pela imaginação, por um jogo possível entre quem conta e quem ouve (vê).

A transição entre o regime ficcional e documental nunca está explicitamente demarcada. A montagem opera em justaposição, entrelaçando-os com fluidez. Os limites entre um e outro são ainda mais transgredidos quando, após um dos trabalhadores da equipe de cinema ser atacado pelo Onça, outro corre atrás de ajuda. Ao chegar lá, acaba encontrando o restante do grupo, e passamos a ver a própria câmera que filma a ficção da história interna.

Tiró É A Onça parece ressoar um outro título, A transformação de Canuto (Ariel Kuaray Ortega e Ernesto de Carvalho, 2023) que se desenvolve a partir de artifícios semelhantes, também ressoando no ímpeto criativo e na materialidade fílmica, onde a temporalidade Mybá-Guarani impregna os atuantes de alteridade num movimento de vai-e-vem. Ambos buscam criar por meio de uma linguagem não-linear, despreocupados de demarcações objetivas e descompromissados com um sentido restrito do que seria o real.

★★★

O penúltimo longa-metragem exibido na Mostra Competitiva foi Se Eu Fosse Vivo… Vivia (André Novais Oliveira, 2026). Nele, Jacira (Conceição Evaristo) e Gilberto (Norberto Novais Oliveira) compartilham seus cotidianos. No prólogo, vemos uma Contagem dos anos 1970, quando o casal, ainda jovem, vive o auge do frescor de suas vidas. No baile black, os dois vivem toda a intensidade da festa, que transborda para a sala de cinema. O som retumba pelo espaço e a câmera transita pelo lugar pequeno e repleto de corpos se afundando na experiência.

André Novais comentou no debate que Se Eu Fosse Vivo… Vivia surgiu a partir de um interesse por fabular, poder ir além do naturalismo. Segundo o diretor, o luto pela perda de sua mãe o fez sentir sua realidade ser acometida por esse sentimento de realismo fantástico. Com toda sua atmosfera alienígena, a fantasia é totalmente indissociável do naturalismo que vemos acompanhar as primeiras cenas em que o casal aparece junto. O choque entre aquilo que é absurdo e o que é corriqueiro produz uma realidade particular e única suficiente para que aquele universo por si mesmo, dentro das regras de seu próprio mundo.

A montagem feita a quatro mãos por Gabriel Martins e André Novais não deixa dúvidas de que a dupla da Filmes de Plástico se deixou contaminar pelo trabalho um do outro para a realização deste filme. Retomando e deslocando a temática astronômica após o sucesso de Marte Um (Gabriel Martins, 2022), Novais deixa as sequências correrem soltas, confere respiros à matéria fílmica, com planos longos que permitem aos corpos e diálogos passearem pela tela. A linguagem parece dar continuidade ao que foi elaborado em O Dia Que Te Conheci (André Novais Oliveira, 2023).

Gilberto e Jacira, após saírem de um enterro, caminham ao longo de uma estrada de pedra cercada por dois gramados, atravessando a tela lentamente num plongeé extremo e panorâmico. Em off, ouvimos a conversa do casal, sobre o enterro, sobre a vida, sobre a morte. A alegria cinematográfica parece residir aqui: nesse frescor juvenil da vida, no frescor amoroso do casal. Juntos há 40 anos, essa energia continua refletida na imagem durante todo o percurso fílmico, em cada diálogo demorado e cotidiano, em cada objeto da casa que compartilham, formando um quintal exuberante na simplicidade. A sala de cinema é inteiramente abraçada pela magia do comum.