DIÁRIO #7: DA LUZ, DO DESEJO, DA SOMBRA | Poronga (Rafael Rogante, 2026), Banho De Choque (Cíntia Lima, 2026) e Sabes De Mim, Agora Esqueça (Denise Vieira, 2026) | 59º FESTIVAL DE BRASÍLIA DO CINEMA BRASILEIRO

A programação com Poronga (Rafael Rogante, 2026), Banho De Choque (Cíntia Lima, 2026) e Sabes De Mim, Agora Esqueça (Denise Vieira, 2026) criou uma rima visual interessante para o fim da Mostra Competitiva do 59º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, com três filmes que acreditam em sua própria construção narrativa e visual. Correndo o risco de cansar com a repetição dos símbolos de lanternas e de formas de representação fantasiosa, não é algo que acontece aqui graças às qualidades particulares de cada um. Destaca-se especialmente o longa ao utilizar do objeto luminoso explorando suas camadas possíveis e ao manusear os artifícios fantasiosos num mesmo plano do real, em consonância com Se Eu Fosse Vivo… Vivia (André Novais Oliveira, 2026). Carregado por uma potencialidade magnética como poucos filmes do evento, Denise Vieira deu um presente à multidão de pessoas que foram à sessão. Ao lado de Todo o Sentimento (Ary Rosa e Glenda Nicácio), temos mais uma distopia brasileira que deverá ser revisitada para a escrita da história do cinema de nosso país.

★★★

Em Poronga, dois seringueiros tentam sobreviver em meio à mata: à ela e a si mesmos. Os dois homens (José Valdomiro e Artur Nesto) vivem como uma espécie de Vladimir e Estragon da peça Esperando Godot (1957), de Samuel Beckett. Violentamente se relacionam e só podem seguir acompanhados um pelo outro. Uma imagem de São Sebastião decapitado parece revelar os entrelaces: o corpo masculino martirizado, religiosamente, vigiado, secretamente erotizado. A mata se aprofunda a partir dos corpos, que parecem integrados à paisagem. Sem diálogos, com atuações que acompanham os movimentos rítmicos de uma câmera conduzida pela sonoridade de uma rabeca, o curta-metragem constrói uma combinação de tons naturalistas tensionados pelos corpos em crise, a malária e o desejo infestando a tela.

★★★

Banho de Choque (Cíntia Lima, 2026) constrói uma narrativa de desejo e atritos de maneira mais sutil. Depois de anos distante do interior em que cresceu, Lélia (Gheuza) tenta marcar um reencontro com seu passado. Um desejo compartilhado com uma de suas amigas (Lalá Vieira), permanece pulsando, profundo e enraizado, dentro da protagonista. No passeio do grupo, o clímax acontece. O irmão de Lélia (Jailson Silva) acaba indo também. O conflito entre os dois torna-se violento até que surge uma entidade protetora da mata, revelada a partir de movimentos frenéticos de uma lanterna, com flashes de imagens, detalhes do corpo de um cavalo e do rosto do irmão, aprofundando a tensão. A noite vai tomando conta. O close final no rosto da entidade, Comadre Fulozinha, arranca o mistério construído pelo curta-metragem segundos antes, ainda que esteja carregado de um vigor genuíno.

★★★

Numa Ceilândia distópica, Rubia (Pietra Sousa) está em fuga e encontra abrigo num cabaré chamado A Toca, que funciona também como refúgio à repressão dos Lanternas, figuras masculinas de vigilância e controle. Em Sabes de mim, agora esqueça (Denise Vieira, 2026) a personagem é acolhida por Margô (Cida Souza), 258 anos, 50 mortes vividas, mãe da Toca, e protetora das trabalhadoras do sexo que vivem no local. 

A Toca existe como uma congregação de bruxas. Todas tem seu quê de misticismo. Os homens são atraídos até o local e, lá, diferente do que se passa no mundo exterior, eles obedecem a elas, um espaço de absoluta dominação feminina. O filme cria uma cosmogonia própria em que a fantasia e o real coexistem numa mesma espessura, num universo de torpor, num estado entre sono e vigília, em que se contam sonhos e pessoas atravessam paredes naturalmente. Os efeitos especiais são produzidos com teor naturalista, integrados à trama.

Toda a carga de afirmação do erotismo é espalhada nas e pelas imagens. Tudo que é contido, deve ser contido: o espaço acompanha os corpos em closes. Tudo que é excessivo, deve explodir: o prazer, a entrega ao desejo em cada plano na Toca. Nas sombras, na entoca, esconde-se tudo que é vivo. 

A meio caminho do fim, uma imagem de arquivo. Em preto-e-branco, um trem rasga a tela e, em sobreposição a esta imagem, mulheres encaram a câmera com olhos vidrados, contidos: ódio alimentado em segredo. São imagens da construção de Brasília. Os trens chegavam trazendo os trabalhadores, a matéria prima. As trabalhadoras do sexo já estavam aqui para recebê-los. Elas existem antes da própria cidade.

A sentença de Deus é pregada pelos Lanternas. A igreja, o machismo, o conservadorismo materializados num feixe de luz. As lanternas como o clarão que quer apagar a opacidade. Denise Vieira utiliza da luz (Cinema) como mecanismo de construção de uma narrativa onde a superexposição é a arma do inimigo.