NOTA DA EDITORIA
Disponibilizar a tradução brasileira deste manifesto assinado pela La Rabia se move através do desejo de responder ao (ou criar ferramentas possíveis para lidar com o) cenário do cinema contemporâneo brasileiro, a partir desse exercício tão longevo, ao mesmo tempo que cada vez mais desvalorizado e inóspito, que é a crítica de cinema. Este, no entanto, não é um escrito de soluções, mas de excitação, de dúvidas e de vontade para caminhar por aquilo que está entre as imagens, as políticas, as disputas… Entre aquilo que ainda poderá ser (re)inventado.
Convidamos a realizadora Manu Zilveti, com quem já tinhamos compartilhado a leitura deste texto e iniciado uma tradução em outra ocasião, para retomá-la e compartilhá-la num novo contexto editorial, em que pesquisadoras, realizadoras e críticas de cinema estão escrevendo sobre filmes dirigidos por mulheres e pessoas dissidentes de gênero ou títulos os quais trazem o (não) protagonismo dessas/es sujeitas/es. O conjunto de textos reflete, confronta e mobiliza tangencialmente os enunciados desse documento, convocando a imaginação, o desejo e a indeterminação pelas/através das imagens.
NOTA DA TRADUTORA
Esse texto se encontra com a visão que partilho com outros companheiros e companheiras da realização e da crítica de filmes por posicionar-se radicalmente contra a binarização entre o certo e o errado do que devemos, ou não, pensar e fazer em filmes. Ele abre espaço para criar diálogos sobre cinemas dissidentes sem se amedrontar pelo que está permitido ou proibido de dizer acerca de uma criação cinematográfica.
O primeiro gesto de tradução deste texto se deu no ano de 2021 através de um grupo de estudos online que acontecia entre membros de uma revista sobre crítica de cinema. Na época senti uma necessidade grande de recorrer a alguns sinônimos durante a tradução, buscando alterar algumas palavras do texto original que, apesar de existirem tanto em espanhol quanto em português, geravam na minha percepção uma mudança de sentido.
Três anos se passaram e esta tradução ficou guardada em uma gaveta. Quando Lorenna Rocha me convidou para retomá-la, abri o arquivo Word empoeirado e achei esses sinônimos todos meio deslocados. Importante contextualizar que neste meio tempo minha vida deu uma girada de 180º e vim parar em Cuba. Viver entre o espanhol e português é na maioria das vezes divertido e por outras tantas confuso. Toda uma vida aprendendo seu idioma para de repente conhecer uma língua vizinha que, por ser tão parecida e tão diferente, faz com que você se esqueça da sua própria e comece a mezclar tudo, já que são muitos os falsos cognatos (palavras que possuem grafias idênticas mas com significados distintos).
Desta vez na hora de traduzir me passou o contrário, quis, na medida do possível, me manter fiel às escolhas de palavras e ordem sintática das frases do manifesto escrito pela revista La Rabia. Ao ponto que mesmo em português, pode ser que existam rastros do idioma original do texto.
Por outro lado, escolhi alterar as terminações neutras, que no texto original levam a letra X e optei por substituir pela letra E, que compreendo, no momento atual, ser uma opção mais acessível a leitura. Possível que em alguns anos, com o aprofundamento constante desta conversa, sigamos encontrando novos modos de alterar e expandir nossa língua.
Bien, ojalá lo desfruten de la lectura.
(Notas) em direção a uma crítica de cinema feminista
(ou uma aproximação a dois termos que, ao se juntar, aturdem até a quem os anuncia).
Estamos inscrites em um espaço geográfico em permanente disputa; América Latina é um território de conquista e colonização, mas que sabe encontrar os buracos de resistência ante o avanço violento de um sistema mesquinho. O tempo e espaço nos atravessam. A contínua sensação de pender por um fio e a necessidade imperiosa de escrever para nos compreendermos – e compreender es outres – é parte da raiva que nos mobiliza. Imerses em uma economia de crise permanente, vasculhamos as palavras nos perguntando como se constroem as imagens, como se criam os regimes de representação e como está condicionado o pensamento crítico. Em segunda instância, nos inquieta compreender como se dão os processos sociais de significação e consumo, e o valor do cinema no consentimento das formas culturais hegemônicas.
Os escritos críticos sobre cinema – particularmente aqueles que se esboçam desde a dissidência – resultam também em um campo de discórdia e, portanto, de resistência(s). Da mesma maneira que é saqueado nosso próprio território latino-americano por suas riquezas, as imagens e os discursos dos feminismos tentam ser cooptados e comprados (cada pixel e cada traço de tinta tem um preço) pelo Capital, que encontra uma possível rentabilidade neles. Diante desta ascensão da imagem-movimento glitterizada como um dispositivo de valor, a crítica feminista segue sendo um trabalho precário, que cresce às margens e com esforço, tingida de incertezas e, na maioria das vezes, sem recompensações financeiras.
Questionarmos o que é a crítica é um desafio complexo, com uma multiplicidade de conclusões possíveis. Nos posicionamos na contradição, para tentar dissecá-la, revertê-la, pensando em como ela nos interpela. Os feminismos podem ser um prisma através do qual ensaiar novas formas de ver, ser, estar e sentir; ferramentas que permitam uma abertura em direção a outras perspectivas em âmbitos cinéfilos cujas genealogias estão constituídas por dinâmicas viris, estagnadas e binárias. E por esse motivo, se torna pertinente a nós definir os espaços de ação que compartilhamos.
Esboçamos a ideia de uma crítica feminista cujo exercício parte da compreensão do cinema como uma maquinaria de produção de sentidos, cujos modos de fabricação também se imprimem em suas imagens-produtos. Que questione uma lógica capitalista de depredação e extrativismo que converte ao cinema em uma indústria sinistra e mais um pilar para a sustentação do sistema. Que se resista ao consumo exasperante de imagens e que lembre o poder de sedução dos frames e sequências manipuladas e reduzidas a um prazer passageiro. Uma crítica feminista que estimule um deslocamento na abordagem de imagens que não se conformem ao consenso, que se interesse por aqueles filmes que transitam os limites do campo perceptivo que permanecem borradas na História do cinema.
Uma crítica de cinema que renegue essa lógica que tanto reduz a concepção do mundo contemporâneo a um binarismo determinante, que organiza a realidade em caixas ou em moldes em forma de troféus e louros. Que descarte o amparo do politicamente correto para se sustentar em novas configurações do que vê, do que fala, do que pensa, em um movimento permanente de construção e desconstrução, de onde o impulso venha de perguntas e tentativas (fracassadas ou não) para responder a estas questões.
Uma crítica feminista que forme fissuras no discurso hegemônico de onde o desejo tem uma só forma, uma só cor, e onde a felicidade está associada às escolhas de uma vida heterossexual (casamento, filhes, etc.). Que rechace imagens da dissidência configuradas em função da comédia ou do castigo, ou pior, em resposta a uma porcentagem ou cota de inclusão requerida por uma indústria faz mutação de suas peles para se camuflar. Que se afaste dos mecanismos opressivos de classe, sexualidade, gênero e raça imbricados no discurso de um cinema normalizador.
Uma crítica que se mantenha alerta – muito alerta – e que desconfie do rótulo “feminista” que se inscreve em uma nova onda de produções audiovisuais que na ânsia de (d)enunciar o presente, terminam sendo absorvidas pelo sistema, tornando-se filhas favoritas de uma indústria cada vez mais disposta a esvaziar o conteúdo político/ideológico/militante das lutas alheias e adaptá-las a aquilo que o sistema imperante necessita para sobreviver. E de estar ali, poder encontrar os espaços de negociação que devolvem ditas imagens: não se trata do cancelamento pelo cancelamento em si, senão de serem críticas ante aquilo que se apresenta como parte do dado, inerente ao sentido comum.
Uma crítica feminista que é, nas palavras de Teresa de Lauretis, uma “… atividade política, teórica, autoanalisadora mediante a qual podem ser rearticuladas as relações do sujeito com a realidade social a partir da experiência histórica das mulheres…” Uma crítica que não passa por uma tutela moralizante, senão por uma pulsão vital de compreender não só o mundo em que está inscrite, senão também o passado, sem tentar mudar suas imagens, senão aproximar-se delas para seu diálogo-revisão-negociação.
Uma crítica que não seja alheia ao mundo e tampouco confie em certos olhares que ponderam o subjetivo, fingindo um discurso que deva subscrever a perspectiva de quem o escreva. Uma crítica feminista que busque estudar como o cinema forja ao mundo e como o mundo se embaça dentro do quadro e fora de campo. Que possa encontrar o equilíbrio mais acertado possível entre sujeito, objeto e marco a partir do qual ele enuncia. Uma crítica feminista que opere em função de distinguir como cria sentido a linguagem e como se constituem os signos de uma obra, pensando que neste exercício não se esconde uma mensagem oculta de um outre, senão que deixe implícito indícios de nosso tempo. Uma crítica de cinema cuja resposta frente a essa problemática seja sempre: voltar aos filmes.
Uma crítica feminista que proponha trilhas alternativas em direção a possíveis novos cinemas feministas.
TEXTO ORIGINAL
Editorial de La rabia #01
Publicado em 17 de maio, 2021
https://larabiacine.com/2021/05/17/apuntes-hacia-una-critica-feminista-de-cine/