“Em 2013, no governo da presidenta de esquerda Dilma Rousseff (PT), o Brasil vive as maiores manifestações populares desde as ‘Diretas Já’, movimento que, em 1983 e 84, pede a volta das eleições diretas em 1985, 21 anos após uma violenta Ditadura Militar de extrema-direita”, explica as cartelas iniciais de Politiktok (2026), com voz off de Jair Bolsonaro, gerada através de Inteligência Artificial (IA). Mais do que uma leitura conjuntural, a apresentação sobre o cenário político de 2013 está envelopada, a grosso modo, de uma perspectiva crítica da história, do que convencionamos chamar de progressista. Entretanto, a fricção entre o ponto de vista da narração e a voz de quem a fala causa um deslocamento, algum tipo de ruído na imagem do líder fascista da extrema-direita. A resenha parte de uma cena nunca vista, ao colocar palavras na boca de alguém que, provavelmente, jamais iria proferi-las.
Outras informações sobre o momento histórico-político recente do país são fornecidas às espectadoras, agora na voz de Luiz Inácio Lula da Silva: “As ‘Jornadas de Junho’ de 2013 são reprimidas e revelam uma insatisfação geral com a classe política, que resulta num acirramento entre direita e esquerda. Em 2016, um golpe institucional depõe Dilma Rousseff. E seu vice, Michel Temer (PMDB), assume a presidência”. Com o líder populista, não há anarquização do símbolo, tampouco caricatura. O ruído entre a imagem e a voz não se efetiva. A simulação sonora, pelo contrário, estabiliza o atual presidente em ambiente presumido, tendo em vista o espectro político que ele ocupa, correlacionando sua performance — e ponto de vista crítico — ao enunciado.
Enquanto a voz de Lula navega em território seguro e conhecido — ele não comenta nenhuma “estupidez” ou “arrogância” —, seguimos absorvendo o efeito cômico da “inteligência progressista” adquirida pela voz automatizada de Bolsonaro, quando fala em “negacionismo” e reconhece as “mais de 700 mil pessoas mortas” de Covid-19 no país. Ao pronunciar PSL (pê-ésse-él), a deformidade robótica conferida a Bolsonaro revira a sua imagem. As vozes passeiam entre “esquerda” e “direita”, mas só um lado ocupa acentuadamente a “imperfeição”. A análise conjuntural e as cartelas introdutórias, podemos imaginar, também funcionam como um estabelecimento da posição do diretor diante do que o público verá na sequência: um conglomerado de imagens, entre lives, vídeos, memes, cortes e reacts, registradas através da gravação de tela de dois Iphones, em dias que antecederam a votação do segundo turno das eleições presidenciais de 2022.
Mais do que posição, as cartelas que ambientam Politiktok são ansiosas por evidenciar um posicionamento. A sensação é que a mensagem precisa chegar às espectadoras de forma segura, que é urgente localizar as posições para ser identificado como “político”. Se é fato que neutralidade não existe, tentar evidenciar, de saída, um caráter progressista (ou grosseiramente, podemos dizer, de esquerda) do olhar da direção, seria revelar ao público um ponto de partida ou gerar um álibi a si próprio? Enquanto procedimento de montagem, o que isso poderia significar? Ou, melhor, o que esse truque de vozes, em que um lado é mais desestabilizado do que o outro, que torna-se mais caricato e inesperado, pode nos ajudar a pensar sobre a forma como as imagens do documentário de Álvaro Andrade Alves estão organizadas? Em que medida, nesse compilado da performance virtual de “esquerda” e “direita”, que se apresenta como um mapeamento impossível de um pequeno cenário histórico-temporal das eleições de 2022, emerge um olhar temido em ocupar o entre, o irresoluto, o indeterminado?
Filtros, textões, banalidades, reflexões erráticas e análises conjunturais quase sempre impregnadas de uma superficialidade anárquica fazem pulsar de dentro do suporte vertical uma luta de classe e identitária. Das contundências aos absurdos, os afetos, discursos e opiniões aparecem e somem. Contrária a essas invasões simbólicas e a radicalidade de suas matérias, a montagem se estrutura de forma esquemática e previsível, organizando o volume imenso de imagens a partir de sequências temáticas, em que palavras-chaves, proferidas por um dos produtores de conteúdo, catapultam o próximo conjunto de imagens. Sem necessariamente produzir uma simetria entre os pólos antagônicos, a flutuação entre “esquerda” e “direita” tenta preservar uma falsa isonomia, em que ambos os lados da moeda aparecem, mas não necessariamente são expostos em suas desconhecidas (ou menos aparentes) controvérsias.
Enquanto o meme debocha que, nas eleições de 2022, foi possível ver “puta conservadora”, “gay homofóbico”, “trabalhador contra clt”, “homi que trai a esposa falando ser a favor da família” e “pobre defendendo interesses de empresário”, a montagem tenta organizar essas categorias que, no mundo real e virtual, seriam supostamente distantes. Por força contrária, o “dedo invísivel” de Álvaro Andrade Alves não busca embaralhá-las em seu scrolling de quase duas horas. Se podemos dizer que não há intervenções escandalosas no arquivo, por exceção das exageradas cartelas iniciais e finais, da criativa legendagem em inglês que o persegue e do uso de IA para preservar a identidade dos usuários do TikTok, o que presentifica-se aqui é uma contenção que precisa nos lembrar que o filme é, apesar das imagens que mobiliza, um “filme de esquerda”.
Talvez, pelo receio de ser interpretado como um “filme de direita” ou apolítico, Politiktok revive essa dificuldade de olhar para a outridade, a qual o dispositivo tenta se afastar e não se tornar condutor de suas desconfortáveis ideias. O artifício está deflagrado com o esquema montado através das vozes de Lula e Bolsonaro geradas por IA. As cartelas de encerramento do longa, sem nenhuma narração em off, carimbam a mensagem e narram o fim da história das eleições de 2022: Lula eleito, Jair Bolsonaro se recusando a fazer o rito do primeiro dia do ano em 2023.
O resultado da profusão imagética, de esquerda e direita, é a rememoração, ainda, da tentativa de golpe em 08 de janeiro de 2023, a recente prisão de Carla Zambelli e a condenação de Bolsonaro em 2025. Levantou a bola para os aplausos da plateia de “esquerda”? Não suficiente, tenta evidenciar a possíveis desavisadas porque o TikTok é considerado um “app das dancinhas”, com um minúsculo vídeo ilustrativo, o que ainda não deixa de revelar a falta de proximidade, na operação fílmica, com a carne do arquivo que busca mergulhar. Material este, como não, derivado e partícipe de um ambiente político que se estabeleceu também através de disputas de dança, música e flash mobs, como bem sugerem os virais Nordeste É Bolsonaro 17 e Tá Na Hora Do Jair Já Ir Embora.
Na contenção, as mãos que montam e sistematizam Politiktok parecem usar algum tipo de cabresto para lembrar que, por trás, há alguém ali com “consciência política”. Para quem? Os jogos falsamente simétricos, nas entrelinhas, revelam: de um lado “há mais clarividência que o outro”, um lado olha para o mundo “de um jeito melhor”, mesmo em sua capenguice, em suas faltas. Mas, poderíamos perguntar, seria isso também uma interpretação de quem está sentada diante da tela? De que forma nossas identificações ou rejeições políticas não reforçam (ou sugerem) a organização que é interna ao filme? Essa forma de montá-lo revelaria, por assim dizer, a nossa dificuldade de ver o mundo da política brasileira para além de suas duas partes cindidas?
A sobreposição de um olhar autoproclamado progressista para um regime imagético indomável, que mobiliza os diferentes espectros políticos e, particularmente, a sua bagunça e complexidade performática nas redes, é o problema central de Politiktok. O desafio mais interessante do longa-metragem refere-se a atravessar, juntos, a chuva tumultuosa de imagens verticais que suspende, estende e dramatiza nossa relação com o tempo dentro da sala de cinema, impondo uma vertigem do esgotamento criada através do excesso e da repetição. Já sua atitude mais desestimulante está na tentativa de promover um enquadramento pela via da distância, por não desejar qualquer semelhança com o recorte político que acredita não ter proximidade, promovendo uma força bloqueadora, para todos os lados, a qual esse tipo de arquivo não solicita: insubmissas, as imagens precisavam invadir.
Assim, o longa-metragem de Álvaro Andrade Alves recua na possibilidade de se fazer mais confuso, dispersivo e violento do que nossos delírios e nossas categorias permitem encaixar e significar. A tentativa de estabelecer um posicionamento explícito diante das imagens não se torna uma operação crítica, mas um exercício de profundo controle.