Farsa, tragédia, lamento | Anistia 79 (Anita Leandro, 2026) | 14ª Mostra Tiradentes SP

Anistia 79 (Anita Leandro, 2026) começa no Tribunal Russel II, sediado em Roma em 1974, ocasião em que foram ouvidos depoimentos de exilados dos diversos regimes ditatoriais da América Latina. Em tela, aparece Denise Crispim durante a leitura de seu testemunho sobre a prisão, tortura e o assassinato de seu companheiro Eduardo Collen Leite, o Bacuri, e de sua própria prisão e tortura quando grávida. O relato é lido por outra pessoa, fora do campo, enquanto seu olhar indecifrável vacila. Não sabemos para onde seus olhos apontam e, no entanto, serão eles os responsáveis por abrir caminho. É muito devido a seu relato que ganha repercussão internacional a mobilização pela anistia aos presos e exilados políticos brasileiros cuja mobilização culmina na Conferência Internacional pela Anistia no Brasil, ocorrida em junho de 1979, também em Roma. As filmagens do evento realizadas por Hamilton Lopes dos Santos foram encontradas, quase 50 anos depois, por Leandro em um arquivo em Paris.

O longa-metragem primeiro nos conta isso e depois mostra: distancia-se temporal e espacialmente do material de arquivo para revelar o centro de documentação, a película encontrada e, então, a cena em loop de Denise Crispim e sua filha, sorridentes com uma blusa em que se lê “Anistia!”, caminhando de mãos dadas pelas ruas de Roma e nos levando em direção ao evento. E quando começam as gravações da Conferência, outra dobra é feita: alguém está vendo estas mesmas filmagens em uma sala de cinema vazia, outra pessoa em frente ao computador. Esses espectadores, vai ficando mais evidente, são pessoas que estiveram ali, militantes e exilados que, hoje, assistem ao filme como nós. 

A tela se divide em duas partes. De um lado o filme de então, do outro, o filme de agora. No rastro de suas lembranças, o material de arquivo vai sendo apresentado através de depoimentos por vezes explicativos e, por outras, mais distraídos. As figuras se divertem, se assustam — como eram mais jovens, mais bigodudos, mais assertivos — e se emocionam. Nós também. As mais de 60 pessoas ali reunidas — líderes sindicais, diretoras de escola, membros do PCB, do PCBR, militantes da ANL — concordavam em uma coisa: o processo de anistia não poderia ser uma pedra sobre a história recente do país. Anistia, nesse contexto, era sinônimo de justiça, não de conciliação ou, ainda, esquecimento. O material do filme causa um entusiasmo que vai se desvanecendo frente à concretude do presente que, impassível e sem alarde, anuncia o fracasso desse projeto de país.

É curioso pensar esta dobra tão sagaz construída por Anita Leandro através da montagem junto ao gesto ficcional que cadencia a narrativa em O Agente Secreto (Kleber Mendonça Filho, 2025). Através da descoberta no arquivo pelas jovens que trabalham transcrevendo áudios coletados por Elza (Maria Fernanda Cândido) é que a história de Armando/Marcelo (Wagner Moura) se desdobra, efeito por vezes didático demais, mas que garante o lastro entre o então e o agora.  Existe, portanto, em ambos os filmes, uma preocupação similar, isto é, como narrar os eventos forçosamente apagados da história pelo regime militar brasileiro e pela maneira como saímos dele? É também esta a preocupação de Ainda Estou Aqui (Walter Salles, 2024), com seu salto súbito aos anos 2000 e depois aos dias atuais, terminando em tom alegre como quem diz: passou, resistimos. Se, no entanto, neste último, a volta ao passado se dá de forma espetacular e conciliada — como farsa —, em O Agente Secreto isso aparece como tragédia — Wagner Moura reaparece após o assassinato como seu próprio filho, sem memória e sem qualquer intenção de lembrar — e em Anistia 79 é um lamento. 

Numa das cenas finais, Helena Greco (militante e líder do Movimento Feminino pela Anistia) discursa, a plateia levanta-se para aplaudir, mas o áudio se perdeu. Ao lado, na tela partida ao meio, sua filha, Heloísa Greco, nos lê o discurso provavelmente transcrito por ela mesma quando adolescente numa das atas do evento. A maneira como a filha empresta a voz à mãe, um avesso da cena inicial em que Denise olha em silêncio para o futuro incerto, parece condensar os motivos do filme de forma astuciosa. E mais, de forma bela é capaz de mostrar as repercussões e continuidades dessas lutas reais e, sobretudo, seu esgotamento.

Pensando no recorte curatorial da mostra cujo filme é vencedor — Soberania Imaginativa — talvez seja produtivo voltar-se para qual imaginação e qual soberania são estas que a obra formula. Me parece mais interessante olhar para onde ela fracassa. A melancolia de Anistia 79 é própria daqueles que, em suas lutas derrotadas, sabem que de nada vale equivaler o desastre histórico no qual estamos metidos e aquele do qual tentavam sair em 1979, ainda que tenham relação. Nessa inquietação é que reside alguma possibilidade de imaginação. Ignorar as diferenças, por outro lado, resulta na tese corrente  — ainda que insossa do ponto de vista estético e político — de que basta lembrar da barbárie para dar um fim a ela, tornando a rememoração a nossa maior urgência histórica e a única saída possível. (Daí que advém a dimensão farsesca de Ainda Estou Aqui, por exemplo). Saída de onde e para onde?

A pergunta mais interessante que Anistia 79 é incapaz de responder, e talvez não ouse formular, é: como realizar hoje gestos que tenham a mesma radicalidade imaginativa dos que aqueles executados por seus personagens? A sala do evento se esvazia, agora um auditório ermo (tal qual o cinema transformado em banco de sangue ou farmácia no filme de Kleber) e o presente, ainda impassível, se recusa a formular respostas.