O cinza das luzes do mundo | February Answers (Melissa Dullius, 2024) | 10º Festival Ecrã de Cinema e Arte Experimental

Imagens em preto e branco nos revelam árvores secas em um cenário invernal. A neve se distribui pelo chão e pelos galhos. A cada corte, a câmera se aproxima mais desse ambiente. Curtos clarões estouram a superfície fílmica e mudam os enquadramentos, até restar apenas o grão da película em 16mm e um cinza difuso, como se os choques de luz proporcionassem um fundo comum a todas as coisas.

Em February Answers (2024), Melissa Dullius realiza um road movie em que as cores mobilizam o deslocamento. Acompanhamos uma pequena figura de pelúcia em uma trajetória para sabe-lá-onde, e pouco importa. Mais significativo é qual cor esse pequeno ser estará atravessando naquele momento. Cada novo tom que vemos através das paisagens, das matérias, dos objetos, conserva algo daquele primeiro cinza. Nenhuma delas existe por si mesma: permanece ligada ao grão luminoso do qual surgiu. Nenhuma cor elimina completamente aquele primeiro cinza; cada uma o reorganiza, revelando-o de outra maneira. 

Paisagens vistas do carro ou navio, em amarelos e azuis, mantêm-se carregadas de certo fragmento, certo grão de luz que propicia as imagens do curta-metragem. Cruza-se o espaço, mas também se recebe a luz refletida por ele. O corpo da pequena figura muda de tonalidade conforme ocupa cada lugar. Um fluxo contínuo de feixes altera a coloração da pelúcia, de corpo branco e preto em seus detalhes: cinza no todo. As cores não preenchem mais os objetos, dando-lhes qualidade e diferenciação, mas passam a registrar a circulação da luz entre o mundo, a película e aquilo que é filmado por ela. 

February Answers (2024)

Em certo momento, a pequena figura encontra no branco da neve um retângulo preto com um círculo vazado em seu centro, que nos revela o que está por trás: o branco da neve; um objeto do mais banal, que se transmuta numa boneca com cabeça de flor e, em seguida, noutro de difícil identificação, mas menor que os anteriores, passando a emitir lampejos rubros e azuis. As luzes artificiais emitidas pelo pequeno objeto não rompem a paisagem, ao contrário, tornam-se tão naturais quanto a neve que as cerca. Nosso pequeno viajante de pelúcia encara cada um dos objetos como quem os examina. Pouco depois surge um pequeno lagarto verde-luminescente, plástico, mas não falso, que parece observar o que se passa ali, também fazendo sua parte na inaturalização da neve. Nada distingue definitivamente o orgânico do artificial quando tudo é reduzido à experiência da luz.

Dullius faz as cores com que trabalha ganharem espessura quando aproveita dos elementos naturais filmados suas grandiosidades: floresta, céu, sol, o oceano. É diante da reflexão especular do mar, certa cintilância do choque entre água e raios de luz, que essa investigação encontra o ponto de ápice. Não é mais paisagem, mas um campo de reflexão da luz. 

A pelúcia inanimada, que ganha vida como um stop motion nessa viagem para lugar nenhum, parece finalmente poder ver o mar não de dentro de uma embarcação, mas com a distância necessária para notar o grão que está em tudo. O azul do mar, o azul-acinzentado, permanece como cor de tudo que virá em seguida: o mesmo grão que preenche aquelas águas reaparece nas páginas de um caça-palavras. É tudo questão para a câmera-olho pensar. Esse cinza da luz, sempre no entremeio, esse grão da cor que não é apenas parte dos objetos, mas qualidade da própria visão.