Foi dado início ao 59º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, com A Pele Morta, dirigido pela dupla Denise Moraes e Bruno Fatumbi Torres. No longa-metragem, acompanhamos a travessia de Saulo (Luan Iturve), um jovem guarani e rapper, que desloca-se entre Brasil e Paraguai à trabalho, impulsionado pelo luto resultante da perda do irmão. Ao lado dele está Justo (César Troncoso), um caminhoneiro com quem Saulo realiza fretes, uma espécie de conselheiro às avessas que se torna uma presença central na trajetória do protagonista.
A Pele Morta inicia com a tentativa de apresentar a personagem com uma sequência que supostamente sintetizaria os conflitos que veremos no desenrolar do filme, à la escola dos roteiros mais convencionais, em que se deve amontoar sinais e posturas forçadas para escancarar características específicas de uma só vez, com desejo de condensar o tempo de desenvolvimento da personagem num instante. Saulo vai até uma loja de eletrônicos para comprar um aparelho de som de alta qualidade. Os vendedores brancos parecem não aceitar que ele, indígena, terá condição financeira de comprá-lo. O cenário de exclusão se expressa nas negativas em sequência: parcelado fica x valor, temos outro mais em conta que pode interessar ao senhor. Saulo, revidando com frases objetivas, é colocado como uma caricatura dele próprio. Prescritiva, a cena parece narrar a si mesma, buscando encaminhar para os espectadores seus significados, com personagens descrevendo cada um de seus gestos como se não estivéssemos vendo o que a imagem já mostra.
O revide do garoto, ao dizer Eu vou pagar à vista, parece ter sido a grande solução encontrada para expressar certo compasso diante de uma gama enorme de questões que a personagem poderia fazer surgir: um jovem guarani-kaiowá rapper, a questão da impermanência, desse trânsito entre as geografias e costumes guaranis, brasileiros e paraguaios. O filme, porém, não consegue transformar essa matéria em imagem, ritmo, presença e relação, como feito por exemplo em Mborairapé (Roney Freitas, 2023) em que som atravessa a imagem e é atravessado por ela.
Até vemos um alongamento das possibilidades de conflito: de classe, de tensão intrarracial, com o irmão Maicon e os amigos de Saulo questionando por que ele comprou esse som de playboy. O conflito resulta do fato de Saulo, aos olhos dos outros, aparentemente ter aderido a uma forma de pertencimento criada pela lógica do capital, quando, na verdade, queria apenas a qualidade sonora proporcionada pelo aparelho. Ao mesmo tempo, ele questiona por que os amigos querem se envolver com certas coisas que também podem ser lidas como caminhos em direção a uma adesão ao dinheiro. Mas tudo isso vai sendo abandonado no decorrer do filme, que privilegia os saltos na montagem para contar mais coisas, sem dar respiro ao que foi contado anteriormente.
Saulo também conduz passeio linguístico do protagonista entre o guarani e o português através do rap. O ritmo musical, por sua vez, torna-se um mero acessório comunicacional. O gênero repleto de atritos, em sua história e forma, é completamente ignorado, de modo que o som converte-se em um artifício esvaziado. Justamente o ritmo que atravessa tão profundamente a história de Saulo passa distante do longa-metragem, com uma montagem e uma fotografia de tons publicitários, com planos de câmera perfeitamente posicionados e milimetricamente medidos, incessantemente repetidos, que não dão brecha para qualquer ruído, conciliados com imagens televisivas.
Mesmo confrontado como objeto de poder ou status, a aquisição do aparelho de som, na realidade, confere certa serenidade a Saulo. Seu interesse pelo rap como ferramenta não só de arte, mas também de luta, é o centro de sua performance. A atuação de Luan Iturve consegue arrancar, escapando do sem-ritmo do filme, algumas dissonâncias que saltam à tela. A presença do ator dá pulsão a algumas das cenas mais desligadas de preocupação cinematográfica. A exemplo do momento em que canta um rap enquanto anda de bicicleta, com a câmera o acompanhando frontalmente: os movimentos do ator fazem do plano mais que mera musicalidade, mexendo inquieto a cabeça, refaz a inquietude do som, recriando a matéria do rap na imagem.
Já em outro momento, Justo e Saulo encontram Rosário (Ivana Gomez), pedindo carona na estrada, a princípio negada por Justo, mas aceita por insistência de Saulo. Ela, também uma jovem Guarani, parece surgir como uma memória do protagonista, que o faz lembrar de tudo o que viveu antes de partir com o frete. Os momentos entre os três ainda recuperam essa cadência apenas ameaçada no início, de que teríamos alguma construção relacional a partir do ruído, permanecendo sempre no quase-lá.
A Pele Morta parece um recorte de histórias que não tiveram possibilidade de estenderem-se na multiplicidade, com uma série de pequenas tramas lançadas, que são direcionadas ao vazio. Se, no gesto da cena da aquisição do som, a solução encontrada foi condensar, comprimir o tempo, os momentos em que o tempo mais se aproxima de dilatação e adensamento são os que permitem a fluência da imagem, dessa consonância que faz alguma rima atrituosa entre imagem-som.