Em fevereiro de 1913, Fernando Pessoa escreve a um amigo contando de um estado intenso de atenção e angústia que tem lhe causado sofrimento na sua vida na cidade. Em meio a tantos estímulos, Pessoa vê sua alma transformada num caderno de notas cujas páginas são preenchidas por “versos ingleses, portugueses, raciocínios, temas, projectos, fragmentos de coisas que não sei como começam ou acabam, relâmpagos de críticas, murmúrios de metafísicas”, e são tantas as páginas, o poeta confessa, que acaba por perdê-las quase por completo: “Toda uma literatura, meu caro Mário, que vai da bruma — para a bruma — pela bruma”…
O que Pessoa nomeia como uma “crise de abundância”, em 1913, parece sintetizar (ou prenunciar) o estado perpétuo das coisas no mundo moderno, uma bruma que só se adensa. Como, então, pensar o exercício da crítica hoje? Ideias demais, sem o tempo necessário para precipitar, esvoaçam. A lógica é inversamente proporcional: menor é o tempo, maior a quantidade de objetos da cultura e a necessidade de parar para olhá-los com a lentidão que a obra pede. Abundância cruel que gera escassez: no excesso, a crítica se rarefaz.
Mas em algo se acredita e isso deixa rastros: esse mesmo estado que paralisa Pessoa em 1913, em 2025 dá nome ao filme de Júlio Bressane e Rodrigo Lima, Relâmpagos de crítica, murmúrios de metafísica, um filme de montagem em que é posto para jogo todo um arquivo de imagens do cinema brasileiro. O fenômeno curioso do desdobramento: no contato, na imersão, em deformação, as imagens, cujo caminho natural talvez fosse a bruma, ressurgem e ganham alguma sobrevida.
“Noto que nosso cinema ou é experimental ou não é coisa alguma!”1, escreveu Bressane em 1993, e é por aí que arriscamos pensar também o exercício da crítica.
É neste sentido que vai a nova coluna da Revista Câmarescura, a qual chamamos de Murmúrios Críticos: na busca pelo prolongamento das imagens, através da experimentação com a escrita. Lançando mão das condições e instrumentos que temos, assumindo a falta de tempo, de remuneração, a dificuldade de ver um milímetro que seja para além da bruma, apostamos no exercício da crítica como um modo de atravessar a crise, de anotá-la; como insistência; como musculação.
Serão, portanto, textos curtos, com a especificidade de serem sempre num formato dialogal, isto é, feitos por mais de duas mãos, buscando ecoar o murmurinho das salas de cinema. A crítica, justamente, como forma de manter a conversa acesa. Não como decifração dos enunciados contidos nas obras, nos seus segredos, tampouco uma tradução, mas como uma brincadeira de montar e desmontar os filmes, apenas para ficar mais tempo com eles, fazê-los durar um segundo mais, logo antes de sumir.