DIÁRIO #5: TRAÇOS DE CINEMA | Lagoa do Abandono (Diego Maia, 2026), Futuro Decadance (Leviathan, 2026), Privadas de suas vidas (Gustavo Vinagre, 2026)

A presença recorrente de imagens de arquivo nesta edição do Festival de Brasília permanece. Como observado no DIÁRIO #3: FORMAS DE MANTER AS MEMÓRIAS VIVAS, há uma leva significativa de títulos que recorrem a materiais do passado, mas são poucos que conseguem fazer do arquivo mais que apenas um suporte de informação ou uma lembrança a ser reconstituída. Futuro Decadance (Leviathan, 2026) pode ser considerado como contraponto a esse conjunto de filmes, uma vez que aproxima o arquivo e ao universo ficcional, fazendo da memória da cena clubber de Maceió uma matéria viva a ser reanimada pela linguagem cinematográfica. Entre os filmes de animação, Lagoa do Abandono (Diego Maia, 2026) encontra formas instigantes de aproximação entre a matéria do traço e a transformação dos seres de sua narrativa. Já, Privadas De Suas Vidas (Gustavo Vinagre, 2026), exibido logo na sequência da Mostra Competitiva, parece ter interrompido o fluxo de proposição criativa entre forma e conteúdo. Ainda que interessado em temas como corpo, memória e ficção queer, o longa-metragem vai na contramão dos anteriores, talvez prejudicado pelo gesto de programação, talvez por ele mesmo, provocando um desmonte na Mostra Competitiva.

★★★

Lagoa do Abandono (Diego Maia, 2026) poderia fazer um bom par com Fundura (Catapreta, 2026), ao conseguir acomodar traço e trama em sua matéria fílmica. No curta-metragem cearense, acompanhamos duas garças em busca de um lugar para fazer seu ninho, sobrevivendo diante da destruição das escavadeiras. Uma espécie de misticismo circunda o ambiente, onde os seres viventes se confrontam com as máquinas e seus lacaios, engenheiros de obra. O traço que dá forma às personagens abraça as possibilidades de erro. A mancha colorida que compõe seus corpos escapa ao limite das silhuetas. Os movimentos alternam-os frame-a-frame. Quando estouram, duas garças voam em direção ao topo do céu, metamorfoseando-se noutras espécies, e se lançam de volta ao chão, explodindo as escavadeiras e retomando a vida que seria tomada dali. O recurso estilístico alimenta a narrativa com a maleabilidade da tinta escorrendo, conforme o bicho se transforma. Como em sua imagem final, o filme possui uma vitalidade cinematográfica que encanta. 

★★★

Futuro Decadance (Leviathan, 2026) conta sobre a cena clubber da cidade de Maceió e traça um paralelo entre duas narrativas, uma a partir de imagens de arquivo e outra por meio do universo ficcional, num constante diálogo, sem nunca deixar uma ou outra para trás. A viajante (Seven Colby) está se preparando em clima e figurino para uma festa, como uma atriz em seu camarim, prestes a entrar no palco de um grande espetáculo. Entrelaçado a isso, ouviremos, sem nunca ver a imagem de quem fala, relatos sobre a memória desta cena transgressora na capital mais conservadora do Nordeste. A escolha por não mostrar os rostos de quem fala é contagiada pela noite, onde cada pessoa é única e ninguém ao mesmo tempo, em que se pode ser o que se quer. A decisão parece querer questionar a própria noção de arquivo: Quais histórias, quando contadas, podem ser apoiadas por registros materiais? Quais corpos possuem o direito de gravar visualmente suas memórias na História? Leviathan, também DJ e performer, faz de seu curta uma festa ao contaminar-se das personas que documenta, alinhando o ritmo da montagem aos ritmos da noite. Futuro Decadance constrói uma ficção sonora assinada por idlibra, a qual tomou conta por completo da sala do cinema, deixando o sabor de querer mais. Mais pista, mais filmes com essa efervescência que trata o arquivo não como mera lembrança, mas como potência ficcional, imagética, uma realização.

★★★

Privadas de suas vidas (Gustavo Vinagre, 2026) coloca lado-a-lado um homem viciado em bets e uma pessoa não-binária. Com abordagem caricatural, o longa-metragem abandona o drama envolvido nas duas histórias e se perde num humor auto-narrado, em que o excesso estilístico não adquire nenhum tipo de substância. Malu (Martha Nowill Benjamin), mãe de gêmeos e atarefada produtora de eventos, recai sob uma maré de horror ao perder um dos filhos que estava pulando numa privada. Sem esconder nada, vemos o corpo dele sendo atravessado pelo objeto. Dado um salto temporal, as novas batalhas dela estão ligadas à transição de Gênesis (Benjamin Damini), seu filhe adolescente não binárie, que ela não aceita, e uma prisão de ventre severa. No condomínio em que ela vive, a história avança conforme a personagem  provoca uma maldição no sistema de esgoto do prédio: privadas assassinas passarão o restante do longa aniquilando os moradores, um a um. A construção cheia de artifício não passa de uma reiteração simbólica escatológica, da privada e da merda. Com diálogos insistentes sobre o que se vê na tela, o excesso se perde em uma gratuidade utilitária. Queremos dizer: parece gratuito todo o jogo, mas seus objetivos estão sempre calculados e demarcados demais, o que faz com que sua inventividade criativa, assinatura esperada para um cinema de horror trash, como tenta emular, não passe de um mero efeito.